Um dilema na União Europeia: China pela OTAN? Por Andrés Ferrari

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Um rival sistêmico que promove modelos alternativos de governo” foi como a União Europeia (UE) descreveu a China em março de 2019. Porém, semana passada, seu representante para Assuntos Externos e Política de Segurança, Josep Borrell, disse que o termo “rival sistêmico” é um pouco controverso para definir a China, afirmando que embora “esteja claro que não temos o mesmo sistema político”, a UE “respeita a caminho de desenvolvimento que o povo chinês escolheu” e que a China é “muito necessária em vários assuntos internacionais”.

Essa mudança de “capa” é muito mais que um jogo diplomático de palavras. Borrell afirmou “está claro que a China tem uma ambição global. Porém, ao mesmo tempo, não acredito que a China esteja desempenhando um papel que possa ameaçar a paz mundial”; expressão claramente diferente das usadas por Donald Trump. Em outras palavras, parece estar em curso um caminho de aproximação entre a UE e a China independente do adotado pelos EUA, o que pode levar a uma ruptura ou a um enfraquecimento da principal aliança internacional que caracterizou o mundo desde a Segunda Guerra Mundial.

A União Europeia se distancia da OTAN

Enquanto Borrell defendia que a UE deveria seguir uma perspectiva realista com relação a China porque ambos tinham muitos assuntos de interesse comum, o secretário geral da OTAN, Jens Stoltenberg, alertava que a ascensão da China modificou “fundamentalmente o equilíbrio de poder no mundo, substituindo a concorrência econômica e tecnológica pela hegemonia, o que ameaça a liberdade social e individual”. Expressava, assim, a mesma visão a que Trump deu início quando era candidato a presidente – de que a OTAN está obsoleta.

Em seus discursos Trump afirmava que os aliados da OTAN eram parte dos que estavam se aproveitando dos EUA, o que se manifestaria na desigual distribuição de gastos. Na campanha eleitoral, Trump exigia que os aliados “reembolsassem completamente” as forças armadas estadunidenses. Recentemente, Trump passou a ação e acaba de determinar a retirada da Alemanha de 9.500 soldados dos 34.500 – e de mais outros 17.000 empregados civis – que os EUA tem ali – além disso, algumas informações indicam que podem ser removidos outros 5.000 antes do final do ano. Estas tropas estadunidenses estão na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o que deixa claro uma importante mudança de posição levada a cabo por Trump.

Antes do impacto da pandemia, que está infringindo um duríssimo golpe nas economias europeias, poucos imaginavam que os países da UE poderiam cumprir as exigências militares que lhes correspondiam, pactuadas em 2014 (2% do PIB para a Alemanha). Desde a última Cúpula do G7, os líderes europeus, liderados pelos mandatários da França, Emmanuel Macron, e da Alemanha, Angela Merkel, começaram a se perguntar se os EUA continuariam sendo um aliado da sua segurança. Nessa ocasião, Macron afirmou que a Europa deveria voltar a pensar em cuidar da sua própria defesa.

Trump direciona sua estratégia com o objetivo central de cercar a China, atuando de forma unilateral. Desse modo, ele diz não apenas como a OTAN deve se configurar, mas também qual deve ser a configuração do G7. Sua visão sobre esse último grupo não deixa dúvidas de seu propósito, quando ele manifesta seu desejo de incluir nesse grupo Austrália, Índia, Coreia do Sul e Rússia – contornando geograficamente a China –, o que, além de deixar o grupo desprovido de seu sentido original (agrupar as maiores economias mundiais), deixa de fora a China, que disputa a liderança global com os EUA.

Merkel se aproxima de Xi

Durante o último mês, a Alemanha tem expressado cada vez mais claramente o seu crescente distanciamento dos EUA. O ministro alemão de Assuntos Exteriores, Heiko Maas, lamentou a perda dos laços com os EUA dizendo que décadas de “estreita” colaboração se converteram em “complicações” desde que Trump se tornou presidente. Na Deutsche Welle, Peter Beyer, coordenador de relações transatlânticas de Merkel, declarou que “ isso romperia as pontes transatlânticas”, enquanto Rolf Mützenich, presidente do grupo parlamentar socialdemocrata de centro esquerda no Bundestag, disse que o rumoroso plano dos Estados Unidos de retirar seus soldados da Europa poderia conduzir a um “realinhamento duradouro da política de segurança na Europa” e que a estratégia dos EUA está mudando para a Ásia. Borrell argumentou que a pressão para escolher um dos lados, EUA ou China, está crescendo e que a Europa precisa de “uma estratégia mais sólida para China”.

Assim que a China anunciou uma nova política de Segurança Nacional para Hong Kong, a União Europeia se mostrou relutante em participar da cruzada empreendida por Trump contra a China em nome da “liberdade”, assim como fez a Grã-Bretanha. Borrell, apesar de se manifestar “profundamente preocupado” pela “preservação do alto grau de autonomia de Hong Kong”, indicou que não acreditava que “as sanções contra a China” fossem uma solução para os problemas europeus. Merkel, de sua parte, defendeu que a UE deve manter um diálogo “crítico e construtivo” e que represálias comerciais não estavam na agenda do diálogo com a China.

Esse diálogo vem se intensificando nos últimos meses, através de mais conversas entre o líder chinês Xi Jinping, Merkel e Macron. O assunto central desse diálogo procura encontrar acordos comerciais e de investimento. Merkel solicitou que a China seja mais aberta aos investimentos europeus e os conceda “igual tratamento”. Um encontro previsto para setembro na cidade de Leipzing, Alemanha, pode não acontecer por causa da pandemia; porém isso não impedirá um maior diálogo – em contraste com o que vem acontecendo entre Xi e Trump.

Laços econômicos, não ideológicos, um jogo da China?

No canal televisivo chinês, China Global Television Network (CGTN), Lan Shunzheng, do Charhar Institute, pontuou que já faz um ano desde o relatório “Perspectivas estratégicas UE-China”, em que a UE delineava a intenção de procurar uma cooperação econômica bilateral mais estreita e a implementação de uma estratégia de conectividade euroasiática. Essa visão da UE se revela radicalmente distinta da promovida pelo secretário de estado dos EUA, Mike Pompeo, que considera que a OTAN deveria adotar uma nova perspectiva de segurança contra a China. Na Cúpula da OTAN, Alemanha e França não estiveram de acordo com um relatório interno que colocava como inimigo comum a China e não o terrorismo.

Outro meio de comunicação chinês, o jornal Global Times, em uma nota editorial, explicou que a UE está tentando se distanciar dos agressivos EUA: “Em meio a uma intensa competição entre China e Estados Unidos, a UE não colocará a ideologia acima dos interesses nacionais, mas ponderará racionalmente suas relações com a China e os EUA”. Dessa maneira, a China parece expressar satisfação com sua busca fundamental por musculatura econômica, sem entrar em questões de organização política ou ideológica, mostrando qual é sua estratégia no embate global com EUA. A UE parece estar fazendo o mesmo.

Foto: Divulgação

Andrés Haines Ferrari, economista argentino, Professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Doutor em Economia com ênfase em Economia do Desenvolvimento pela UFRGS.

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