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SOBERANA-01, a vacina cubana contra o COVID-19, por Maria Haro Sly

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Bill Clinton afirmou que o famoso ganhador do prêmio Nobel Gabriel García Márquez atuou como mediador nas relações entre Cuba e EUA na década de 1990. Segundo Clinton, García Márquez lhe disse: Fidel Castro deseja que você prometa duas coisas. Se o embargo for retirado, ninguém pressionará Cuba para não manter os sistemas gratuitos de educação e saúde (…).

Estava muito próximo, mas o fim do embargo não aconteceu até hoje. Entretanto, apesar do bloqueio econômico e da limitação de recursos, Cuba mantém seus sistemas de educação e saúde gratuitos e está começando os ensaios clínicos da sua própria vacina contra o COVID-19, a SOBERANA-01. Cuba está no seleto grupo de países potencialmente capazes de desenvolver uma vacina. Poucos países no mundo têm capacidade científica e tecnológica ou a possibilidade de combinar essas potencialidades – Cuba é o único país da América Latina e o 30º no mundo. O papel da medicina cubana tem se destacado na luta contra a atual pandemia.

SOBERANA-01 foi projetada e desenvolvida pelo Instituto Finlay em cooperação com o Centro de Imunologia Molecular e Síntese Química e com Laboratório Biomolecular da Universidade de Havana. O Instituto Finlay tem esse nome em homenagem a Carlos Finlay, epidemiologista cubano que viveu no final do século XIX. Ele foi um dos pioneiros da pesquisa sobre febre amarela, identificando que o vetor de transmissão dessa doença são os mosquitos. Finlay foi indicado 7 vezes ao Prêmio Nobel, porém não o recebeu.

O Instituto Finlay tem 30 anos de experiência no desenvolvimento de vacinas. Já desenvolveu 8 vacinas para meningite e tétano e tem mais cinco em estudo. O desenvolvimento farmacêutico e os estudos pré-clínicos em animais demonstraram que sua potencial vacina contra COVID-19 induz uma poderosa resposta imunitária.

Existem diferentes tipos de vacinas: as que usam o patógeno vivo atenuado, as que usam o patógeno morto (inativado), as vacinas com toxóides, as vacinas que são baseadas em tecnologia genética (DNA ou RNA), além de muitos tipos de vacinas de subunidade (que utilizam uma parte do agente patogênico – o antígeno – com comprovada capacidade imunogênica, ou seja, capaz de induzir a resposta imune). Neste último grupo se encontra a candidata à vacina de Cuba, a SOBERANA-01.

O sucesso de uma vacina de subunidade depende, em grande parte, do antígeno escolhido para produzí-la. No caso das pesquisas do Instituto Finlay, como eles explicaram, a aposta, depois que a estrutura do vírus ficou conhecida no mundo científico, é investigar meticulosamente a proteína RBD (domínio de receptor obrigatório, em inglês receptor-binding domain) que se encontra na “proteína de pico” e constitui a “chave” para a entrada do vírus na célula humana.

Uma vez identificado o antígeno, é necessário produzí-lo, purificá-lo e testá-lo quanto a sua capacidade de gerar uma resposta imune protetora. A RBD é uma proteína complexa. Segundo a Dra. Belinda Sánchez Ramírez, Diretora de Imunologia e Imunoterapia do Centro de Imunologia Molecular (CIM) que liderou essa parte do estudo, é necessário produzir essa proteína a partir de células de mamíferos, algo em que o CIM tem uma experiência de mais de 25 anos graças a produção de proteínas recombinantes para terapias de câncer e a produção de anticorpos monoclonais humanizados.

O CIM precisa produzir não apenas o RBD que a candidata à vacina utiliza, mas também mais sete proteínas recombinantes que são utilizadas em técnicas analíticas necessárias como parte do processo de avaliação da vacina e que Cuba não pode comprar.

Essa etapa do desenvolvimento da candidata à vacina foi possível porque o CIM possui a tecnologia de DNA recombinante necessária para produção de proteínas complexas em células de mamíferos, bem como as plataformas para fermentação de células de mamíferos em larga escala, purificação de proteínas complexas e avaliação de identidade de proteínas recombinantes; o que em seu conjunto permite a produção de RBD que o país necessitaria para uma campanha de vacinação em massa.

Cuba tem, em 23/09/20, 5.270 casos e 118 mortes. Até agora é o melhor caso de gestão da COVID na América Latina. O bom desempenho está relacionado a um de seus pontos fortes, a saúde, Cuba tem uma taxa de 8,2 médicos para cada 1.000 habitantes, uma das taxas mais altas do mundo. Além disso, mais de 3.500 médicos, enfermeiras e profissionais de saúde da Brigada Médica Cubana Internacional, Henry Reeve, estão colaborado em 35 países afetados pelo coronavírus, prestando a assistência de urgência necessária.

O lançamento dos ensaios com as novas vacinas demonstra o sucesso da política científica iniciada por Fidel Castro e continuada por Díaz Canel Bermúdez. Mostra como o Estado empreendedor é um conceito chave para o desenvolvimento de capacidades tecnológicas. Mesmo num contexto de embargo econômico, o sistema de inovação cubano, guiado pelo social e orientado para a missão, permanece uma contribuição importante para o bem-estar humano.

Muitos países reivindicaram o Prêmio Nobel da Paz para os profissionais de saúde cubanos, por seu internacionalismo e pela defesa que fazem do direito universal ao acesso a cuidados de saúde.

A SOBERANA-01 é uma aposta na soberania tecnológica.

Tradução: Bruno Roberto Dammski

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Maria Jose Haro Sly é socióloga, nascida na Argentina. Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestranda em Estudos Contemporâneos da China pela Escola da Rota da Seda, da Renmin University of China.

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