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O aprofundamento das relações entre China e Rússia: evidências e limites, por Matheus Bianco

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Hoje, os fundamentos que ancoraram a ordem hegemônica estadunidense parecem estar, senão enfraquecidos, ao menos em transformação. Alguns autores contemporâneos, como o historiador escocês Niall Ferguson e o jornalista brasileiro Pepe Escobar[1]alertam para a existência de uma Guerra Fria 2.0, travada entre Estados Unidos de um lado e uma aliança entre China e Rússia, de outro. Mas, qual o caráter do aprofundamento da relação sino-russa?

Elizabeth Buchanan[2], pesquisadora do Centro de Estudos Europeus, especializada em política externa e geopolítica russa, destaca que o aprofundamento da relação entre China e Rússia possue limites, visão compartilhada por outras autores como Angelina Flood[3] e   Artyom Lukin, todos especialistas em relações sino-russas.

Já foi tratado em uma análise anterior (*), como se desenvolveu a frustração da Rússia com o Ocidente a partir da dissolução da União Soviética, e como Moscou progressivamente viu como necessária – a fim de defender seus interesses estratégicos – a adoção de uma política externa mais assertiva em relação ao Ocidente, mas principalmente, aos Estados Unidos. Esta análise pretende ser uma continuação deste contexto, tendo como objetivo, a partir de uma perspectiva russa, oferecer um breve panorama do caráter do aprofundamento das relações sino-russas no século XXI.

Parte 1 – Da recuperação econômica à Crise na Ucrânia

Depois do fracasso do modelo econômico e político de viés ocidentalista-liberal implementado na Rússia após a desintegração soviética, diversos motivos foram apontados para justificar a recuperação econômica do Kremlin na virada para o século XXI.

Aponta-se, por exemplo, a ampliação das reservas internacionais russas, seja pelo aumento dos preços globais do petróleo e gás natural que se observaram após 1999 – passaram de US$ 12 dólares o barril de petróleo no fim de 1998 para US$ 100 dólares no decorrer da nova década -, seja pela própria redução das importações russas no período.

As reformas econômicas realizadas por Putin também auxiliaram na melhora dos números macroeconômicos do país nos anos 2000. Destaca-se, por exemplo, as reformas tributárias que ampliaram os tributos sobre os lucros advindos da produção e exportação de recursos energéticos, ampliando as receitas federais e permitindo a realização de investimentos públicos com maior conforto fiscal. No final da primeira década do século XXI, a dívida pública russa alcançou o patamar de 7,4% de seu PIB, em contraste com os 92% atingidos em 1999.

A partir de 2008, a Rússia passou a enfrentar junto com os demais países primário-exportadores os efeitos do fim do ciclo das commodities internacionais, bem como da recessão econômica europeia, região que até então era o principal mercado russo. Dependente das rendas advindas das exportações de seus recursos energéticos, Moscou sofreu uma perda notável com o declínio dos preços do barril do petróleo, que em 2016 atingiram a marca de US$ 30 dólares. O Kremlin sofreu ainda um segundo baque, este relacionado à conjuntura internacional geopolítica com o Ocidente: a crise na Ucrânia em 2014 e as consequentes sanções econômico-financeiras sobre Moscou, responsáveis por causarem um grande impacto econômico sobre o governo Putin.

A crise ucraniana e seus desdobramentos colocam em evidência dois dos principais desafios que o Kremlin busca superar desde a desintegração soviética: 1) geopoliticamente Moscou busca administrar ameaças e manter sua influência sobre seu entorno periférico, no que a Rússia considera ser o principal desafio à sua segurança nacional; 2) economicamente, as sanções ocidentais, capitaneadas pelos Estados Unidos e replicadas pela União Europeia agravam a frágil e pouca diversa economia russa, afetando-a em pontos sensíveis.

Parte 2 – O impacto das sanções econômico-financeiras sobre a Rússia

Os primeiro impactos das sanções econômicas sobre Moscou foram sentidos pelo programa de modernização militar do país (SAP 2020), que previa uma ampliação de gastos militares e um aumento da exportação de armamentos. Isto pois as sanções prejudicaram as exportações russas para mercados europeus, bem como interromperam as importações russas de bens de alta tecnologia da região, essenciais para o setor bélico russo. De igual modo, as sanções também atingiram o setor energético do país, especialmente no que se refere às restrições de financiamento de capital e tecnologias ocidentais às empresas de energia russas.

É preciso apontar que as próprias fragilidades econômicas domésticas estruturais russas contribuíram para ampliar o impacto das sanções ocidentais. Neste sentido, aponta-se que o grande fluxo de receitas excedentes com a venda de commodities nos anos 2000, apesar de terem provocado na Rússia um aumento da renda das famílias, e da produção e estabilidade macroeconômica, não foram convertidas em uma modernização econômica. É sintomático dessa situação que as exportações russas provenientes de setores não relacionados ao de hidrocarbonetos praticamente estagnaram-se entre 2000 – 2015.

 Sob esses aspectos, a combinação de sanções econômicas e os baixos preços registrados do barril de petróleo consistem em dois dos maiores desafios econômicos da Rússia no momento, já que possuem alto potencial para enfraquecer os principais pilares de sua economia: o energético e o de defesa. Seus principais impactos relacionam-se à redução das exportações russas, restringindo o orçamento federal, e também a queda das importações russas de bens essenciais para sua economia, especialmente os relacionados à bens intensivos em tecnologia, já que a Rússia não possui as capacidades necessárias para a produção destes. Em conjunto com a restrição de acesso ao capital ocidental, há um forte impacto no desenvolvimento de novas indústrias, arrecadação fiscal, diminuição do emprego, depreciação do rublo e contração da renda.

Frente ao contexto de diminuição de exportações e importações em relação ao Ocidente, especialmente por conta das sanções, a Rússia passou a intensificar suas relações comerciais com compradores e fornecedores de capitais e tecnologias asiáticos, como Coreia do Sul, Índia, e China. Neste sentido, mais do que um alívio comercial, a aproximação sobretudo com a China, torna-se uma válvula de escape russa para a construção de uma resistência em relação ao cerco geopolítico ocidental.

A Gazprom é a maior empresa de energia da Rússia, e a maior exportadora de gás natural do mundo. É um dos símbolos da ascensão econômica e política do governo Putin e atua de forma muito próxima ao governo de Moscou afim de cumprir funções geopolíticas no cenário eurasiano. DPA/ Vostock-Photo

Parte 3 – O aprofundamento das relações sino-russas: números, políticas e parcerias

Desde o princípio é preciso destacar que, quanto à questão econômica, há uma significativa diferença do caráter de modelo econômico entre Rússia e China, que atua de forma desfavorável ao Kremlin. Neste sentido, Moscou ampara sua economia enquanto um grande provedor de recursos naturais-energéticos, enquanto a China é uma grande consumidora destes recursos e exportadora de manufaturados, maquinários e bens intensivos em tecnologia.

A partir deste contexto, é fundamental destacar o comércio bilateral entre os dois países. A parcela de exportações de maquinários da China para a Rússia empreendeu uma crescente: em 2001 era de 9,33%, crescendo para 20% em 2005 e 45,15% em 2012. Por sua vez a exportação do mesmo grupo de mercadorias da Rússia para a China, decresceu: de 28,7% em 2001, para 20,1% em 2002, 1,2% em 2006 e 0,36% em 2012 respectivamente. Tais números contrastam com as exportações de commodities energéticas da Rússia para a China: de 10,2% em 2001, cresceu para 53,9% em 2006 e 70,67% em 2012. 

A partir da Crise da Ucrânia em 2014, a Rússia viu reduzir significantemente o comércio com seus 10 maiores parceiros comerciais[5], sendo a China a única exceção. Apenas de 2014 a 2019, o comércio dos países foi incrementado em 17%.

Neste contexto, a aproximação sino-russa no âmbito financeiro também merece destaque. Em 2018 o Banco Central da Rússia, muito por conta das sanções econômicas após a crise da Crimeia, reduziu drasticamente a porcentagem de seus ativos estadunidenses, passando de 29,9% para 9,7%. Ao mesmo tempo, o Banco Russo ampliou seus ativos chineses de 2,6 à 14,1%. Ademais, as reservas em dólar do Banco Russo decaíram de 45,8% para 22,7%, enquanto as reservas em renminbi (RMB) saltaram de 2,8% para 14,2% segundo dados do Banco da Rússia. Consequentemente, a entrada da Rússia na órbita geoeconômica chinesa pareceu inevitável. De um lado, há uma China em constante crescimento econômico, demandando progressivamente mais recursos energéticos e sofrendo cada vez mais uma pressão econômica dos Estados Unidos, por conta da Guerra Comercial; de outra lado há uma Rússia, carente de recursos financeiros e maquinários, mas extremamente rica em recursos naturais, cujas vendas consistem em um de seus principais pilares econômicos. Não foi surpresa que o setor energético foi a área que mais cresceu nas relações bilaterais entre China e Rússia. Desde 2015 a Rússia ampliou a exportação de petróleo para a China em 60%, deslocando a Arábia Saudita como maior fornecedor de petróleo de Pequim.

É de se notar que ao mesmo tempo que Moscou empreende esta aproximação econômica com Pequim, o Kremlin está atento à dependência econômica em relação à China, a qual poderia constranger a independência e soberania do país. Esta postura visualiza-se na resistência da Rússia de incluir a China na venda de ativos estratégicos de seu país, como portos ou mesmo a relutância em aceitar diversos empréstimos chineses, a despeito da aproximação financeira entre as duas nações.

Outro esforço russo nesse sentido é a constante resistência de Moscou em construir um tratado de livre comércio com a China, limitando-se à construção e solidificação de tratados não tarifários.

Assim, iniciativas já vêm sendo trabalhadas entre os países que atenuem o receio de uma grande dependência econômica russa em relação à China. Em visita de Xi Jinping à Rússia durante celebrações da Parada da Vitória de 9 de maio em Moscou, apenas 24% dos acordos firmados entre as partes estavam ligados à recursos naturais: as áreas bancárias, de finanças e investimentos contaram como 38% dos negócios, e tratados em pesquisa e desenvolvimento somaram 21% relacionados a alta tecnologia e 10% em transporte e infraestrutura. O setor de defesa também agrega neste contexto: contratos bilaterais entre as partes foram firmados com o intuito de Moscou fornecer à Pequim Caças Su-35 e sistemas anti-mísseis S-400.

Um outro setor importante de cooperação entre China e Rússia é a cooperação militar em exercícios conjuntos. Apesar dos dois países empreenderem estes tipos de exercícios desde 2005, um ponto de virada ocorreu em setembro de 2018, quando a China integrou as manobras estratégicas russas no exercício Vostok-2018, no extremo leste russo, o maior exercício militar do país desde 1981. Antes, em 2015, Pequim e Moscou conduziram um grande exercício naval no mediterrâneo, quintal marítimo da OTAN, enquanto em 2016 e 2017 realizaram manobras em regiões geopolíticas sensíveis: no Mar do Sul da China e no Mar Báltico.

Considerações Finais

Diante das dificuldades visíveis originárias de distintos modelos econômicos, percebe-se esforços graduais no eixo Pequim-Moscou que buscam superar a lógica de vantagens de curto prazo. Estas mudanças parecem indicar, sobretudo, uma mudança qualitativa nas relações sino-russas, e sua razão principal aponta para a construção de um eixo de maior resistência às políticas ocidentais, as quais provocam constrangimentos econômicos e geopolíticos sobre Rússia e China.

A ampliação dos níveis de colaboração diplomática, geoeconômica e militar entre China e Rússia colocam sobre a mesa a dúvida se estas relações poderiam convergir na formação de uma aliança. De modo oficial, tanto Moscou quanto Pequim repetidamente negam quaisquer intenções de consolidar uma aliança político-militar. O Ministro de relações exteriores russo, Sergey Lavrov, em outubro de 2019, reforçou que as relações sino-russas “nunca estiveram em um nível de confiança tão elevado”[7], mas ao mesmo tempo reforçou que nenhum dos dois países planejavam a construção de uma aliança militar.

Por outro lado, os recentes e crescentes esforços estadunidenses que visam desacoplar a economia de Washington da economia de Pequim, podem reforçar o incentivo para o incremento das relações sino-russas, que vêm em uma crescente desde o cerco econômico-financeiro ocidental sobre a Rússia, a partir de 2014.

Em linhas gerais, parece haver um exagero contextual a afirmação de que está presente no sistema internacional uma Guerra Fria 2.0, como apontam Niall Ferguson e Pepe Escobar. Neste sentido, Elizabeth Buchanan, Angelina Flood e Artyom Lukin identificam com mais precisão alguns limitantes – dos quais apenas alguns foram tratados neste texto – da construção de uma parceria de grandes proporções entre China e Rússia.

Estes limitantes, no entanto, não são intransponíveis. Também há indicativos de que a guerra comercial dos Estados Unidos contra a China não se amenizará mesmo com a eleição de Biden para a presidência no pleito de 2020. E não há indicativos que as políticas de sanções econômicas-financeiras ocidentais sobre a Rússia serão amenizadas.

A continuação de uma mudança qualitativa das relações sino-russas, assim, tende a se aprofundar diante do cerco geopolítico e econômico dos Estados Unidos sobre o eixo Pequim-Moscou. E apesar de relevante, este seria apenas mais um fator para o cálculo político das relações entre Rússia e China, diante do complexo tabuleiro geopolítico que os dois países ocupam no continente Eurasiano.

Referências e Consultas:

[1]https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/russia-e-china-o-mundo-unipolar-estaria-desmoronando

[2] https://politicsir.cass.anu.edu.au/people/dr-elizabeth-buchanan#acton-tabs-link–tabs-0-row_2-1

[3]https://www.russiamatters.org/analysis/expert-round-how-likely-china-russia-military-alliance

[5] China, Alemanha, Estados Unidos, Bielorrussia, Itália, França, Japão, Coreia do Sul, Polônia e Cazaquistão

[7] https://tass.com/politics/1086654

Dados Extraídos do Banco Mundial e a partir das referências acadêmicas.

Referências Acadêmicas:

GURVICH, Evsey; PRILEPSKIY, Ilya. The impact of financial sanctions on the Russian economy. Russian Journal of Economics[S. l.], v. 1, n. 4, p. 359–385, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ruje.2016.02.002

KAZANTSEV, S. V. Anti-Russian Sanctions: Then and Now. Problems of Economic Transition, [s. l.], v. 59, n. 1–3, p. 84–99, 2017.

KUDRIN, Alexey; GURVICH, Evsey. A new growth model for the Russian economy. Russian Journal of Economics (2015), p. 30-54.

LUKIN, Artyom. The Russia–China entente and its future. International Politics, [S. l.], n. 0123456789, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1057/s41311-020-00251-7

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Fotos: Photo-Xinhua e DPA/Vostock-Photo

Matheus Bianco é Mestrando no Programa de Pós Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS). Pesquisa política externa russa e o impacto das sanções econômico-financeiras dos Estados Unidos sobre Moscou após a Crise da Ucrânia, bem como o aprofundamento das relações sino-russas e o impacto desta na Ordem Liberal.

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