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Biden, Kamala Harris e a relação EUA-China, por Andrés Ferrari e Matheus Bianco

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Dois fatos recentes se relacionam com o futuro da economia mundial. Um deles foi a eleição de Kamala Harris como companheira de chapa do candidato do Partido Democrata Joe Biden para as eleições de novembro. Outro é o encontro que aconteceu no dia 15 de agosto entre China e EUA para revisar a primeira fase do acordo comercial assinado por ambos em fevereiro, o que se dará em meio a escalada, em especial nos últimos meses, do conflito que vêm mantendo.

Para muitos esses dois eventos se relacionam, pois consideram que a tensão vigente entre as duas principais economias do mundo está particularmente relacionada com o caráter do atual mandatário estadunidense, Donald Trump. Em especial, dada a importante vantagem que Biden tem nesse aspecto, considera-se que o diálogo sino-estadunidense melhoraria com uma mudança na Casa Branca. Contudo, essas expectativas podem ser precipitadas. Mesmo com uma mudança presidencial, as relações entre China e EUA podem continuar bastante tensas.

A própria Kamala Harris acaba de expor sua visão de como deve ser a política externa dos EUA através de um questionário elaborado pelo Conselho de Relações Estrangeiras, responsável pelas Relações Internacionais. Diante da pergunta de como seria a relação com a China, Harris expôs que os EUA deveriam retomar seu caminho tradicional de líder moral das nações, abandonado por Trump, e para tanto “cooperaremos com a China em assuntos globais como as mudanças climáticas, porém não permitiremos que abusos aos direitos humanos continuem sem controle”. No que diz respeito aos acordos comerciais, criticou o enfoque protecionista de Trump por ter sido “um desastre. A guerra comercial, promovida por ele, está esmagando os agricultores, acabando com os empregos nesse país e castigando os consumidores”. Porém, isso não significa que será menos dura para China: “Trabalharei com nossos aliados europeus e asiáticos para enfrentar a China no que diz respeito a suas preocupantes práticas comerciais”.

Essa visão de Harris, como avaliou Christian Le Miere o mês passado no South China Morning Post de Hong Kong, coincide com a do Partido Democrata. Em sua plataforma, afirmou que não “recorreriam a guerras tarifárias unilaterais e contraproducentes” nem cairiam “na armadilha de uma nova Guerra Fria”, assim como não encarariam a concorrência sino-estadunidense como sendo principalmente militar, mesmo quando seja necessário enfrentar e responder a uma agressão” no mar da China Meridional e no Estreito de Taiwan. Contudo, se criticará Pequim por cometer abusos aos direitos humanos, por manipulação cambial e por suas práticas comerciais desleais, bem como serão aplicadas sanções contra funcionários chineses envolvidos na repressão de Hong Kong. Le Miere conclui que o objetivo de Biden é conseguir um equilíbrio entre o confronto da administração Trump e a adaptação da administração Obama, que tentou gerir a ascensão da China evitando a tensão militar e procurando que este país se integrasse ao sistema internacional vigente como uma “parte interessada e responsável”.

Entretanto, no último dia 11 de agosto nesse mesmo jornal, o colunista Robert Delaney analisou quão difícil pode ser para Biden chegar a tal equilíbrio, afirmando que “digam o que quiserem sobre Trump: ele nos ensinou a arte de tratar comercialmente com a China”. Mesmo assumindo uma possível vitória de Biden, Delaney acredita ser equivocado considerar “que a guerra comercial travada até agora produziu poucos efeitos para os EUA, exceto bilhões de dólares em tarifas punitivas desembolsados pelos importadores estadunidenses”, porque “Trump deixou claro a loucura dos intermináveis ‘diálogos estratégicos’ empreendidos pelas administrações anteriores”.

Delaney afirma que “no final do segundo mandato presidencial de Barack Obama, o acesso que tinham as empresas, os jornalistas e os diplomatas estadunidenses à China tinha mudado pouco desde que esse país se uniu a OMC 15 anos atrás”. Nesse período, alega que a China se aproveitou da relação comercial com os EUA para se reestruturar econômica e industrialmente. Nesse contexto, destaca que Trump, com seus ataques, conseguiu fazer da China um tema para os EUA, colocando-o como um assunto central da política futura do país.

De forma similar, em um artigo recente no Foreign Affairs, Fareed Zakeria assinalou que se tinha formado um novo consenso bipartidarista nos EUA, sob o qual tanto democratas como republicanos consideram que a China representa, na atualidade, a maior ameaça econômica e estratégica que enfrenta o país desde o final da Guerra Fria. Esta visão, que também está presente em vários meios de comunicação, já se encontra difundida entre a maior parte da população estadunidense.

Segundo uma pesquisa do dia 30 de julho desse ano, realizada pelo Pew Research Center, 73% da sociedade estadunidense tem uma má percepção da China. Isso é aproximadamente o dobro do que foi apurado uma década atrás e um aumento de 20% com relação aos dados de quando Trump assumiu a presidência. Essa visão negativa da China está, além disso, muito relacionada com percepção de 64% dos estadunidenses para quem esse país asiático “lidou mal” com o COVID-19 e com a de 78% que considera que a pandemia global atual é, em grande medida, culpa de como o governo chinês agiu no seu surgimento em Wuhan.

Embora os republicanos mostrem uma tendência maior que os democratas a culpar a China pela pandemia e a manter uma visão negativa sobre ela, o resultado global é que metade do país considera que os EUA deveriam responsabilizar a China pelas consequências do COVID-19. Em outras palavras, apesar das fortes críticas que parte da sociedade estadunidense faz a Trump por sua gestão interna da pandemia, tanto em termos sanitários como econômicos, no que diz respeito a China os seus ataques tiveram êxito, pois tornaram manifesta uma visão compartilhada pela maior parte dos seus compatriotas.

Além das posições de Trump no que diz respeito a suas intenções eleitorais, Biden, mesmo saindo vencedor, terá que carregar o estigma que o atual mandatário lhe impôs ao relacioná-lo ao “vírus chinês”. Sobretudo porque Trump vem espalhando que seu rival, não apenas representa o candidato que a China gostaria de ver vencedor, mais também que, na maioria das vezes, sustenta diretamente ser “seu candidato”.

Procurar não ser visto como “muito suave com os comunistas” foi uma questão que se fez presente reiteradas vezes durante a Guerra Fria tanto para presidentes como para candidatos. Por isso, alguns como John F. Kennedy e Lyndon Johnson acabaram aprofundando a Guerra com o Vietnam, enquanto outros como Jimmy Carter perderam as eleições. Em outras palavras, além da plataforma eleitoral democrata e da visão da chapa Biden-Harris, o mais provável é que, mesmo que eles vençam, a margem para diminuir a atual tensão entre as duas maiores economias do mundo será pequena.

É nesse contexto que, no dia 15 de agosto, altos funcionários estadunidenses e chineses revisarão a implementação da Fase 1 do seu acordo comercial através de uma videoconferência. Às tensões já conhecidas soma-se ainda o fato de que, não apenas no acordo original muitos analistas consideravam que existiam metas inalcançáveis, mas que, devido ao impacto da pandemia global, a realidade piorou muito. Como detalha CNBC, a China se comprometeu a aumentar suas compras de produtos estadunidenses em 200 bilhões de dólares em relação aos níveis de 2017, porém comprou menos de um quarto dessa meta. O principal assessor econômico de Trump, Larry Kudlow, afirmou igualmente que “eram excelentes números” e que não acreditava que as negociações fracassariam.

Contudo, diferente de seis meses atrás, quando o acordo foi assinado, a disputa já não está mais restrita ao campo comercial e econômico. O recente e forte discurso do secretário de Estado, Mike Pompeo, contra a China expôs inumeráveis conflitos desencadeados a partir do antagonismo comercial. Alguns deles, além disso, não apenas entre eles – em particular no Indico-Pacífico.

Na China, as tensões derivaram no surgimento de uma diplomacia mais dura do “Guerrero Dragão”. Alguns analistas consideram que seu resultado foi prejudicial para a China, que voltou a se posicionar de forma mais condizente com sua tradição. Wang Wenbin, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, negou, como afirma Pompeo, que a “China queria se converter em outro Estados Unidos” e que o país asiático busca apenas “promover relações bilaterais através da coordenação, cooperação e estabilidade”.

Richard Haass, presidente do The Council on Foreign Relations, no Project Syndicate alerta para o perigo não apenas de uma nova Guerra Fria entre EUA e China, mas que que se está a beira de uma guerra aberta. Defende que se deve esperar passar os comícios nos EUA e, depois, “os dois governos precisam iniciar um silencioso diálogo estratégico para desenvolver regras de mudança para suas relações bilaterais”. Afirma ainda que os EUA devem abandonar a ideia de poderem fomentar uma mudança de regime político na China, que, por sua vez, “terá” que aceitar que existem limites para o que os EUA e seus aliados toleram quando se trata de atos unilaterais que buscam alterar o status quo no Mar da China Meridional, em Taiwan e nas ilhas Senkaku”.

Em outras palavras, o que por enquanto ninguém aceita mudar.

Tradução: Bruno Roberto Dammski

Foto: Divulgação/ RS

Andrés Ferrari Haines é professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais, Faculdade de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS). Integrante do Núcleo de Estudos dos BRICS (NEBRICS-UFRGA) e Poder Global e Geopolítica do Capitalismo (aferrari@ufrgs.br).

Matheus Ibelli Bianco é aluno de mestrado do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS). Integrante do Núcleo de Estudos dos BRICS (NEBRICS-UFRGA) (matheusibellib@gmail.com).

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