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Sorvetes no Alasca: Biden confronta a China, por Andrés Ferrari

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Algumas semanas atrás, o presidente dos Estados Unidos Joe Biden fez um pronunciamento especial um ano após o início do que se tornou a tragédia da COVID-19 no país, com mais de 520 mil mortos. Para se ter uma ideia do significado dessa cifra: ela é dez vezes mais que o número de estadunidenses mortos na Guerra do Vietnã. Com o programa de vacinação massiva que foi lançado, Biden espera que em 4 de julho seus compatriotas possam comemorar o Dia da Independência juntos.

Biden também questionou a perseguição que os asiático-americanos têm sofrido nos EUA. Recentemente, um atirador matou oito deles em Atlanta. Biden solicitou que esses ataques parem porque são “antiamericanos”.

Ambos episódios remetem indiretamente, porque Biden não foi explícito, a seu antecessor, Donald Trump: a sua forma de lidar com a pandemia e ao fato de ter estigmatizado a China até o seu último discurso como presidente, afirmando que o impacto do coronavírus se devia ao “vírus chinês” e responsabilizando os chineses pelos males econômicos que os americanos vêm sofrendo nas últimas décadas.

Esse comportamento de Biden, para muitos, reflete de forma clara os rumos que os Estados Unidos tomarão daqui para frente, que serão de mudança radical em relação a Trump. Em janeiro, Biden disse: “Podemos fazer da América, novamente, a principal força do bem no mundo.” Ao dizer implicitamente “de novo” e “força do bem”, Biden está sinalizando que os anos sob o governo de Trump foram “anormais” para o país e que ele deixou de conduzir um comportamento positivo em relação ao mundo.

A política externa que Biden pretende seguir busca voltar a contar com os tradicionais aliados do país – Europa e Japão, principalmente – que foram abandonados por Trump. Assim, grande parte dos analistas vêem em Biden uma liderança dos Estados Unidos que tentará novamente ser o líder mundial de uma ordem liberal global.

Biden disse que tal retorno é essencial para enfrentar o autoritarismo e passou, imediatamente, a mencionar China e Rússia. Em outras palavras, o caráter liberal e multilateral da liderança mundial que buscará estabelecer não se aplicará a esses países.

Em relação à Rússia, Biden causou forte impacto ao acusar Putin de ser um “assassino” e de ter interferido nas eleições norte-americanas em favor de Trump por meio de ataques cibernéticos. Com essa atitude, Biden reverteu totalmente o tratamento que os EUA de Trump dispensava a Rússia. Porém, em relação à China, os sinais são de continuidade da política de Trump.

Semana passada, no Alasca, delegações dos dois países se reuniram pela primeira com a participação do governo Biden. O ambiente foi tão tenso que, como destacou a mídia, nem se quer houve confraternização entre eles. Como esse distanciamento era esperado por ambas as partes, entende-se que esse quadro está dando o tom para o tratamento bilateral entre as duas maiores potências no mundo.

Embora as atitudes de Trump em relação à China, em seu último ano de mandato, tenham sido marcadas por vários confrontos diretos, o governo chinês, desde o início da rivalidade presidencial, tinha poucas esperanças de que haveria grandes mudanças com Biden. Mesmo assim, a China deixou as portas um tanto abertas… mas Biden já mostrou que seu tratamento não será menos duro, embora os caminhos sejam diferentes.

Na Ásia, embora Trump pressionasse o Japão e a Coréia do Sul a assumir parte dos gastos militares com a segurança da região, pelos quais os Estados Unidos são responsáveis desde a Segunda Guerra Mundial, sua postura radical foi posteriormente combinada com atos de reaproximação, procurando incluir a Índia e a Austrália em um grupo regional que isole a China. Algo semelhante se observou na relação entre os EUA de Trump e a Europa. No início, houve críticas a grande parcela dos gastos da OTAN paga pelos EUA, assim como uma rejeição ao G-7. Mas, depois, Trump anunciou seu projeto de estabelecer um G-7 expandido ou um G-Democrata, novamente, com o objetivo de excluir a China.

O governo Biden parece seguir as mesmas linhas. Algo que no gelado encontro do Alasca foi ainda mais claro …

Nessa reunião, os EUA trataram de tópicos importante para China – Hong Kong, Xinjiang e Taiwan – além de abordarem questões relativas as disputas comerciais. O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, declarou que “Pequim é uma ameaça à estabilidade global”, depois de empreender uma viagem para reforçar as alianças asiáticas, enquanto o país norte-americano passou também a ser porta-voz dos problemas que o Canadá e a Austrália impingem a China. Além disso, pouco antes da reunião de quarta-feira, o Departamento de Estado anunciou sanções contra 24 funcionários chineses que acusa de estarem envolvidos no desmantelamento da democracia em Hong Kong.

A delegação chinesa respondeu com firmeza. O diretor do escritório da Comissão de Relações Exteriores do Comitê Central do Partido Comunista da China, Yang Jiechi, acusou os EUA de hipocrisia com relação a defesa dos direitos humanos e apontou o histórico americano de intervenções externas.

Além disso, chamando atenção para o movimento racial recente, ele criticou o tratamento dado às minorias e afirmou que os EUA devem primeiro colocar sua casa em ordem antes de criticar os outros. “Os Estados Unidos não representam a opinião pública internacional nem o mundo ocidental”, disse Yang. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, acompanhou os comentários de Yang, porém num tom mais conciliador, reconhecendo Blinken e Sullivan como “verdadeiros amigos do povo chinês”.

De acordo com um analista de Política Externa da China, Michael Hirsh, o governo Biden “está se preparando para uma batalha de longo prazo com poucas esperanças de reaproximação”. Nisto se manifesta o legado de Trump, que foi a base do seu confronto com a China. Trata-se um consenso bipartidário no Congresso e entre pensadores estratégicos dos Estados Unidos, incluindo os militares. Além disso, com seus ataques e sua retórica, Trump já estava, antes mesmo do surgimento da pandemia, convencendo seus compatriotas de sua visão negativa da China.

De acordo com uma pesquisa recente do Gallup, 45% dos americanos veem a China como o “maior inimigo” dos EUA, um aumento de 23% em relação ao ano anterior, apenas 20% têm uma opinião favorável da China. Em seu editorial o Washington Post comemorou que Biden adotou um “tom apropriadamente duro com a China, de forma a reestabelecer as relações com esse país de forma adequada”, bem como o fato do dele ter afirmado que o líder chinês, Xi Jinping, está errado ao acreditar que os Estados Unidos estão em declínio.

Contudo, o confronto sino-americano tem limites impostos pela necessidade que ambos possuem de cooperar para enfrentar os problemas globais que afetam o mundo. Além da contenção de pandemias como a atual, a mudança climática continua sendo uma questão fundamental.

Muitos afirmam que a China e os Estados Unidos estão no meio de uma Guerra Fria, embora reconheçam que há grandes diferenças com relação ao que foi observado no período que se estendeu do final da Segunda Guerra Mundial até a queda da União Soviética. Outros destacam que nada era mais adequado para a reunião do que as temperaturas glaciais do Alasca.

Foto: Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. Crédito: Ron Przysucha/ Divulgação

Andrés Ferrari Haines é professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais, Faculdade de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS). Integrante do Núcleo de Estudos dos BRICS (NEBRICS-UFRGA) e Poder Global e Geopolítica do Capitalismo (aferrari@ufrgs.br).

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