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Os EUA, o Brasil e a doença da covid-19, por Liana Carleial

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A acirrada disputa tecnológica entre China e EUA, a corrida para a elaboração da primeira vacina contra a covid-19, bem como a possível união entre China e Rússia contra o dólar, conferem um pouco o tom do “ambiente” contemporâneo na geopolítica mundial. É verdade que a pandemia vem embaralhando um pouco as cartas, à medida em que, não sabemos qual desses países, do topo da pirâmide que hierarquiza o mundo, seja pelo poderio econômico, militar ou da moeda sairá na frente e conseguirá a pole position. Enfim, a Rússia lançou e registrou, há poucos dias, a primeira vacina, SputinikV, que protege contra o vírus, em meio a desconfianças generalizadas, mesmo com a afirmação de Putin de que uma de sua filhas já teria tomado a vacina; uma delas é médica, não se sabe se foi a própria1. A OMS – Organização Mundial de Saúde iniciou conversações para se inteirar das condições específicas sob as quais se deu o desenvolvimento e quais as garantias de segurança para aplicação em humanos para, posteriormente, se posicionar.

Na realidade, o desenvolvimento da vacina teve um caráter militar, foi financiado pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia( RDIF) e mesmo tendo sido sediada no Instituto Gamaleya, teve também a participação do Centro Vektor, criado em 1974, para realizar pesquisas de armas biológicas, durante a Guerra Fria ( GF )2. Por enquanto, o único registro é russo. No entanto, no dia 17 de agosto passado, a China aprovou a primeira patente no país para uma vacina, Ad5-nCoV, para o laboratório CanSino Biologics, definindo a propriedade sobre a vacina e o direito de vender as doses.

Este momento, pode sim, gerar mudanças na luta pelo poder mundial e sua hegemonia. Até recentemente, a Rússia esteve mais dedicada a recuperar suas forças econômicas e militares bem como ocupada em proteger seu próprio território e regiões vizinhas que ganharam autonomia após a dissolução da União Soviética, diante das ameaças do avanço da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte) na região.

Há poucos dias, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo,

proferiu um discurso, induzindo o pensamento de que neste momento a disputa EUA x China, está reeditando, sob uma nova forma, a guerra fria como a que ocorreu entre os Estados Unidos e a Rússia. Ele pediu aos países aliados e ao povo chinês que trabalhem ao lado dos EUA para mudar o comportamento do partido comunista chinês. Pompeo chegou a dizer que Xi Jinping é “um crente fiel em uma ideologia totalitária falida”3. Estaríamos voltando a um cenário de disputa ideológica, em pleno século XXI? Quais serão as bases dessa nova disputa pelo poder, internacionalmente falando?

Vale destacar que a China está se recuperando rapidamente dos efeitos da pandemia sobre a economia e o seu principal motor, as exportações, estão de “vento em popa”, como atesta, por exemplo, Carbajosa(2020). Duisburg tem recebido de 45 a 60 trens por semana, número recorde, segundo Martin Murrack, diretor de finanças dessa cidade portuária alemã, que recebia, anteriormente, apenas 35 trens semanais. Assim as relações comerciais entre a China e a Europa seguem muito bem apesar dos dissabores causados pela pandemia. Como diz Carbajosa (2020), Duisburg é a porta de entrada dos produtos chineses que se destinam também para a Itália, França, Bélgica, Reino Unido e países escandinavos. Mesmo que a ferrovia transporte uma carga menor do que a transportada por via marítima, as estatísticas alemãs evidenciam que em junho passado as importações alemãs da China cresceram 20,2% em relação ao mesmo mês, em 2019. A ligação e interdependência China-Alemanha é enorme, atestada pelas 12(doze) visitas oficiais que a chanceler Angela Merkel fez à China, no seu último período de condução do país. Assim, a Rota da Seda contornou a pandemia chegando de trem à Europa.

No quadro da geopolítica mundial, a América Latina sempre ocupou um lugar subordinado e definido, sobretudo, pela exportação de alimentos e minerais, ou seja recursos naturais, marca histórica de sua inserção nunca superada. No entanto, para Maestri (2020) o objetivo das nações hegemônicas, que ele chama de imperialistas não é mais produzir nas colônias mas sim, impor o decrescimento involuntário delas. O mesmo autor argumenta que essa política foi implementada com êxito na Líbia, Iraque, Iugoslávia e Ucrânia. A prova disso é que a queda dos seus líderes não aportou nenhuma vantagem às empresas e ao desenvolvimento desses países, ao contrário, caíram na pobreza e na miséria, sem chance de desenvolvimento e muito menos de soberania. O mesmo foi tentado com a Rússia, aonde o projeto de destruição caminhava a passos largos, até a ascensão de Putin 4, que afirma, com segurança, que o seu país é um dos poucos países soberanos no jogo de poder mundial.

A pandemia causada pelo novo coronavírus atingiu esse mundo hierarquizado, e vem deixando, às claras, algumas questões. Uma delas, que ganhou força, foi a constatação de que apenas os Estados Nacionais, já que não temos uma governança global, foram e são capazes de organizar uma resposta que salve vidas, diante do fato da doença ainda ser pouco conhecida, da ausência de vacina e, até mesmo, de uma medicação eficaz. O estorvo era a tal austeridade fiscal. Surpreendentemente, porém, foi compreendido que gasto público se transforma em receita privada da famílias, dos trabalhadores e das empresas. Bingo!

Seis países governados por mulheres, Nova Zelândia, Islândia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Alemanha foram capazes de provar que a condução e a postura dos governantes é fundamental para mitigar e até evitar danos às populações atingidas(Carleial; 2020).

Os casos brasileiro e americano podem, porém, exemplificar a contraprova e evidenciar que país rico e país pobre podem cometer os mesmos erros, pois a pandemia não exige apenas dinheiro, ela precisa das estruturas sociais constituídas ao longo do tempo. Dois grandes países, populacional e territorialmente falando, duas ex-colônias protagonistas do início do capitalismo encontraram-se neste momento crucial da contemporaneidade, para evidenciar o despreparo, de ambos, para enfrentar a crise sanitária e humanitária que o mundo vive desde dezembro de 2019. O vírus foi identificado em Wuhan, China, e três meses depois, 200 países já haviam sido atingidos. As dificuldades na condução de uma política a favor da vida, no contexto de uma crise sanitária sem precedentes na nossa história recente, tem sido alvo de muitas discussões pois, alguns acreditaram num trade-off entre economia e vida, e portanto, não tomaram as medidas preventivas necessárias a tempo de evitar o grande número de óbitos que vem ocorrendo.

O primeiro caso, nos EUA, foi identificado em 21 de janeiro passado, um mês antes do primeiro caso brasileiro. EUA e Brasil ostentam hoje o primeiro e segundo lugares, em número absoluto de óbitos por covid-19.

Quadro 1. Brasil x EUA e doença da covid-19


EUA ( em 22.09. 20 ) Brasil ( em 22.09.20)
Número de casos confirmados 6.812.075 4.558.040
Número de óbitos confirmados 199.221 137.272
Número de óbitos a cada cem mil habitantes 60,9 65,5

Fonte: John Hopkins University ( Baltimore, EUA)

A cidade de Nova York, por exemplo, no dia 19.08.20, detinha 1.669 óbitos, por milhão de habitantes, cifra fora de qualquer padrão esperado e seria, caso a cidade fosse um país, o quadro de maior gravidade do mundo5.

Há semelhanças na condução das políticas de prevenção e controle do vírus nos dois países. No caso brasileiro, a questão central deveu-se a ausência de uma coordenação da politica de prevenção e acompanhamento da contaminação pelo coronavírus, uma vez que o atual presidente desconsiderou a gravidade da doença, chamando-a de “gripezinha”, naturalizando as mortes ( afinal, todos morrerão um dia”), expondo-se, publicamente, sem máscara e promovendo aglomerações , contrariando as orientações da OMS- Organização Mundial da Saúde, ou seja, negou, permanentemente, a ciência e o conhecimento esclarecido sobre os cuidados preventivos, a doença e os seus desdobramentos. Outra decorrência da atitude omissa do governo federal, foi que os governadores e prefeitos, que lidam diretamente com as populações, assumiram uma postura diferente, seguiram as orientações da OMS e promoveram ”ruas trancadas” e isolamento rígido; esse fato criou um forte conflito de orientações entre governo federal e as demais esferas da federação. O governo federal chegou a colocar a população, especialmente, seus eleitores, contra os governadores e prefeitos, atribuindo a eles a responsabilidade pelos óbitos. O Supremo Tribunal Federal (STF), entretanto, esclareceu que, como somos uma federação, os governadores e prefeitos podiam traçar suas próprias políticas de proteção às populações.

Nos EUA, o presidente referia-se ao “vírus chinês” aludindo às disputas político-econômica entre eles (Purkayastha; 2020), o que também sinaliza um desrespeito à ciência. Em 29 de maio passado, o presidente anunciou a retirada formal dos EUA, da OMS, e a realocação dos recursos para outras iniciativas; a saída formal ocorrerá em 06 de julho de 2021. Esse fato causou estranheza, pois o país é parte da OMS desde junho de 1948. Nos dois países, faltaram leitos hospitalares, equipamentos de proteção individual, respiradores e pessoal para o atendimento. Muitas dificuldades ocorreram na importação desses itens, produzidos, majoritariamente, na China. Igualmente, nos dois casos, a indústria demorou a reagir para reconverter seus processos na direção das necessidades impostas pela pandemia. No Brasil, as Universidades públicas reagiram produzindo álcool gel e na busca por métodos mais baratos de testagem. Desde o início da pandemia, o Brasil teve dois Ministros da Saúde, médicos, e que não aceitaram fazer propaganda da hidroxicloroquina, droga sem qualquer comprovação científica de eficácia contra a doença, porém aprovada pelo presidente da República do Brasil, posição também compartilhada, incialmente, pelo presidente Trump6. Desde 15 de maio, ou seja, todo o período de maior gravidade da pandemia, o Brasil esteve sem ministro, sendo o cargo ocupado, interinamente, por um general do exército, da ativa, sem formação médica. No dia 16 de setembro passado, o general Pazuello foi efetivado como Ministro da Saúde do Brasil, mesmo sem possuir formação médica e estando ainda na ativa do Exército brasileiro.

O Brasil, porém, diferentemente do EUA, possui um Sistema Único de Saúde (SUS), grande patrimônio nacional, serviço integrado e presente nos 5565 municípios brasileiros, de caráter universal que presta serviços desde a atenção básica até os serviços de alta complexidade, como transplantes, com acompanhamento e integração dos atendimentos realizados. Desde 2016, após o golpe de Estado, entretanto, o SUS vem perdendo recursos no contexto das políticas de austeridade fiscal. A bem da verdade, apesar da gravidade do quadro brasileiro na pandemia, foi a existência do SUS que protegeu o país de uma tragédia ainda maior. A integração das práticas, dos testes e dos tratamentos foi mesmo fundamental.

Supreendentemente, porém, mesmo sendo um país rico os EUA, vem sofrendo efeitos muito semelhantes aos do Brasil, exatamente pelas desigualdades que atravessam também aquele país. A pobreza e desigualdade também reinam no Norte. Romero( 2020) evidencia que há grande incidência de habitação multi-familiar, que é uma das razões do aumento de contágios. Durante a pandemia, o desemprego e o trabalho eventual forçaram pessoas jovens a se mudarem para as casas dos idosos da família, induzindo também o aumento do contágio. Já em 10 de abril passado, 16,8 milhões de trabalhadores requeriam o seguro desemprego.

Na realidade, nos EUA existem programas estaduais, independentes e não integrados fazendo coexistir no sistema jurídico, instâncias federais e estaduais de regulação e as empresas podem oferecer planos de saúde aos seus trabalhadores sob certas condições. O nó da questão, porém, é que o acesso à proteção da saúde depende da inserção específica de cada trabalhador no mercado de trabalho, num momento de desemprego e precarização. Para Kesselman (2010) é difícil compreender bem o sistema de emprego estadunidense, surpreendendo o observador, tal é a complexidade do funcionamento do sistema jurídico estadunidense.

Ademais, nunca houve, entre os americanos, um status salarial institucional, padronizado, que atendesse ao conjunto dos trabalhadores. Como não existe proteção universal pública, o acesso à saúde se diferencia em função do status salarial do assalariado. Na realidade, as negociações coletivas tiveram um papel muito importante na definição de condições de trabalho, jornada de trabalho, hora-extra; cada relação salarial define direitos, proteção e benefícios para cada grupo de trabalhadores. A doença, nos EUA, atingiu mais fortemente negros e migrantes, exatamente, as categorias mais presentes entre os trabalhadores precários, no país. Purkayastha(2020) aponta que para esses grupos sociais, a taxa de mortalidade chega a ser o dobro da apresentada pela população em geral.

A taxa de desemprego é, atualmente, em torno de 10,2% da população nativa, mas em grupos específicos, como os negros, ela atinge níveis bem mais altos, podendo chegar a 50%. Nassif-Pires et ali(2020) também chamam a atenção para a relevância dos níveis de escolaridade e a incidência de comorbidades, as quais incidem mais entre aqueles que frequentaram só até o nível fundamental. Outro fator importante é o número de “pessoas sem teto” nas grandes cidades americanas e brasileiras, em geral mal alimentadas e com algum fator de risco.

As transformações produtivas que começaram a acontecer, a partir da década de 1970, permitiram deslocalizações industriais entre regiões e países, flexibilizaram os contratos de trabalho, ampliaram a terceirização da força de trabalho gerando um descolamento entre a empresa e o empregado, com este passando a ser visto como um trabalhador independente. Os trabalhadores independentes não são sindicalizados e, portanto, não são resguardados pelas negociações coletivas. Assim, ocorreu uma desconstrução dos contratos coletivos de trabalho e as responsabilidades são transferidas para os trabalhadores, os quais não possuem condições de pagar um plano privado de saúde. Ademais, o movimento de enfraquecimento e esvaziamento dos sindicatos, propiciado pela políticas liberalizantes, dificultou mais ainda a condição do trabalhador.

No caso brasileiro, não há relação entre a condição no mercado de trabalho e o acesso aos cuidados de saúde pois o SUS é um serviço universal. O mercado de trabalho brasileiro, no período 2004-2014, a era petista, viveu o seu melhor momento. Criação de postos de trabalho formais, ou seja, com acesso a todos os direitos trabalhistas, valorização real do salário mínimo associados às políticas sociais e de redistribuição de renda. A partir de 2016, entretanto, foi aprovada a chamada reforma trabalhista que instituiu o trabalho intermitente, retirou direitos, fragilizou os sindicatos e a Justiça do Trabalho e instituiu a supremacia do “negociado sobre o legislado”, enfim: desestruturou completamente o mercado de trabalho. O efeitos logo se fizeram sentir. E agora, após cinco meses de pandemia, a situação se aproxima do caos. Foram destruídos 8,9 milhões de postos de trabalho e cresceu o número dos desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego. A taxa de desemprego, divulgada pelo IBGE, de 13,3% é incapaz de retratar a situação de mercado de trabalho, pois como procurar trabalho sem sair de casa? Na pandemia, com as medidas de isolamento social, o que mais cresceu foi o número de pessoas fora da força de trabalho que avançou 156%, em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo Garcia e Pamplona(2020), a expectativa para o desemprego, neste momento, é de 21,5% da força de trabalho, caso o volume de ocupados e daqueles que procuram emprego fosse o mesmo de antes da pandemia e das medidas de isolamento social.

O Brasil, na década de 1980, se colocava como o único país da América Latina com potencial para ser um país plenamente soberano, no cenário mundial, pois possuía a mais densa estrutura produtiva industrial da região tendo tido em 1980, um parque industrial totalmente “engatado” nas tendências mundiais centrado na metal-mecânica e, em tamanho, era maior do que os da Tailândia, China, Malásia e Coreia do Sul juntos (Cassiolato, 2001).

Além disso, já aparecia como um rico produtor de minérios, retratado na empresa estatal Vale do Rio Doce, e ainda um sistema de telecomunicações integrado (Sistema Telebrás) construído ao longo de décadas. A partir de 1990, o país adota as políticas de orientação neoliberal e “embarca” na adoção das clássicas medidas de privatização e abertura comercial, perdendo essas importantes empresas e perdendo também elos importantes em suas cadeias produtivas e, transferindo para o exterior as decisões estratégicas de investimento e, portanto, se dedicando a etapas de montagem no processo industrial, quando as atividades de concepção e design, que são as estratégicas, acontecem nos países centrais ( Carleial; 2001).

A Petrobrás, que escapou dessa primeira onda de privatizações, após o golpe judicial-midiático-parlamentar de 2016, passou a ser vista, principalmente, como um ativo financeiro e a sua estruturação adequada do “poço ao posto”, começou a ser desmontada através da venda de refinarias, gasodutos, áreas do pré-sal e redes de distribuição. Durante os governos petistas (2003-2015), a empresa esteve no centro das atenções, por todos os seus efeitos sobre cadeias produtivas importantes como a indústria naval, produtores de sondas, tubulações, compressores, atividades de P&D e formação de pessoal e a rica interação com Universidades, etc. É inegável a posição do petróleo, como insumo estratégico, bem como arma política no cenário da geopolítica mundial. A descoberta do pré-sal jogou o país noutro patamar e confirmou a expertise tecnológica brasileira em exploração em águas profundas. Hoje, 70% da produção de petróleo e gás advém das áreas do pré-sal. Todo esse esforço foi desperdiçado também em razão de uma operação judicial deslanchada, em 2014, pelo Ministério Público Federal – seção Paraná, a Operação Lava-Jato, que procurou implicar o presidente Lula em práticas de corrupção, na empresa. Esse processo também envolveu importantes empresas brasileiras na área da construção civil, gerando falências e muito desemprego.

A resultante é que hoje o Brasil passou a exportar óleo cru e importar derivados do petróleo, sendo hoje o segundo importador dos produtos elaborados pelos Estados Unidos. Evidenciam-se indícios de interferência externa, ou interesses externos, que foram muito presentes, por exemplo, na metodologia usada na campanha eleitoral de 2018, baseada em fake news, entre elas, aquelas que atribuíam à Petrobrás, o rótulo de corrupta e deficitária, induzindo uma visão negativa da empresa, numa tentativa de justificar a privatização ora em curso 7.

É importante destacar que esse foi o momento no qual a política externa brasileira se posicionou, com firmeza, para construir uma proposta de inserção soberana no mundo globalizado, pois desde o pós-segunda guerra mundial, essa política esteve alinhada aos EUA. Alinhada, mas não subalterna, como a atual, ou seja, nos últimos dois anos . A base de tal proposta, além de estar assentada na expansão das cadeias produtivas do petróleo e gás, foi fortalecida pelas descobertas de petróleo em áreas de pré-sal, exigindo investimentos nas refinarias da Petrobras na busca de redução da dependência externa.

Do ponto de vista comercial, o primeiro parceiro passou a ser a China. Essa política também propiciou uma aproximação entre os países do Sul, instituindo uma rica relação Sul-Sul, como indicava a criação da Unasul – União de Nações Sul-americanas, composta pelos doze países do Sul e, ainda, uma forte aproximação comercial e cultural com a África. Nesses casos, as parcerias se consubstanciaram em avanços institucionais concretos, como a criação de uma Universidade voltada para a integração latino- americana, a UNILA- Universidade Federal da Integração Latino-Americana, localizada na cidade de Foz de Iguaçu e uma outra, a UNILAB- Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, dedicada à aproximação com a África, instalada na cidade de Redenção, primeira cidade brasileira a abolir a escravidão.

No entanto, o avanço institucional mais relevante se deu com a proposta de aproximação com a China, Rússia e India, expressa na constituição dos BRICs e do Banco do Brics, única mudança institucional importante no mundo, pós 2008, e que intentava reduzir a influencia do FMI sobre estes países, aos quais veio juntar-se a África do Sul.

A reviravolta política que se instala a partir de 2016, com o golpe de Estado que acaba de completar 04 anos, traz de volta o Brasil para uma posição, não apenas de alinhamento, mas de submissão aos interesses americanos. Foi mesmo uma grande perda histórica. José Luís Fiori (2007: 35) considera que há momentos no quadro internacional, que “tendem a ampliar os espaços e as oportunidades para os Estados situados na periferia do sistema. O aproveitamento político e econômico dessas oportunidades, entretanto, depende, em todos os casos, da existência dentro desses Estados e dessas economias nacionais, de classes, coalizões de poder, burocracias e lideranças com capacidade de sustentar, por um período prolongado de tempo, uma estratégia agressiva de proteção de seus interesses nacionais e de expansão de seu poder internacional”.

Esse momento existiu durante os anos 2000, em decorrência da ampliação das demandas por produção agrícola, especialmente, da China, que garantiram saldos comerciais crescentes, do fortalecimento da Petrobras, das políticas internas de investimentos públicos em setores estratégicos e das políticas sociais de transferência de renda e de valorização do salário mínimo, mas foi perdida. A correlação de forças internas foi e é desfavorável a qualquer proposta de inserção internacional soberana. A somatória dos efeitos negativos sobre a economia e a sociedade brasileiras do golpe de Estado, das reformas trabalhista e previdenciária, da fixação de um teto de gastos (EC95), do aprofundamento das políticas neoliberais de austeridade que comprometem a educação e a saúde no país, dão concretude à interpretação de Maestri ( 2020) que aponta o risco para as ex-colônias de decrescimento e pobreza, numa estratégia “exitosa” pois sem uso de armas, como aconteceu no Oriente Médio.

A pandemia pela doença do covid-19, seus impactos e consequências deixa sim uma pergunta em aberto: com qual rapidez os EUA conseguirão se recuperar num ano particularmente difícil por ser também um ano eleitoral? As políticas alicerçadas na doutrina Monroe e no “America First” conseguirão se manter ou a pandemia deixará como lição a necessidade de um mundo mais solidário e multipolar? Não esqueçamos também que as disputas entre os países hegemônicos e aqueles que tentam, de uma vez por todas, evidenciar a relativa fragilidade dos EUA não estacionaram. Os estrategistas desses países continuam em ação. Os EUA, mesmo tendo quase mil bases militares espalhadas nos cinco continentes, precisam lidar com o crescimento militar e econômico da China, os efeitos positivos da “nova rota” da seda e do provável domínio chinês nos oceanos Índico e Pacífico. Como ele reagirá? Mirhan, L.(2020), num excelente artigo recente indaga se é inevitável que os EUA declare uma guerra contra a China? Responde baseado no historiador grego Tucidídes, quando analisa os desdobramentos entre Esparta e Atenas, e na “generalização” feita pelo cientista político inglês, Graham Allison Jr., também a partir de Tucídides, quando vaticina: “sempre que uma potencia hegemônica em determinada época percebe a ascensão de outra potência , pode provocar uma guerra que seria evitável”. Mas não é uma lei, a Inglaterra que o diga!

Foto: Envato

Liana Carleial é economista, professora titular em economia da UFPR, professora convidada do Programa de Pós-graduação em Direito(PPGD/UFPR) e pesquisadora do Núcleo de Direito Cooperativo e Cidadania (NDCC) da mesma universidade; é também pesquisadora associada ao GIREPS- Groupe de recherche interuniversitaire et interdisciplinaire sur l’emploi, la pauvreté et la protectionsociale da Universidade de Montréal. liana.carleial@gmail.com

Referências

Carbajosa, A. “Não há pandemia que freie o trem chinês no coração da Europa”. EL País. Internacional. Duisburgo-Alemanha, 16 de agosto 2020

Carleial, L. “Mulheres que governam e a doença da covid-19”

https://www.americaltina.net.br/mulheres-que-governam-e-a-doença-da-covid19.

Carleial, L. “O subdesenvolvimento globalizado: a resultante das decisões de política econômica nos anos 1990”, Curitiba, IPARDES, Revista Paranaense de Desenvolvimento, no.104. pp.

2001.

Carvalho, L; Xavier, LL; Nassif-Pires, L. “Covid-19 e Desigualdade no Brasil” SP, Cebes ( http://cebes.org.br/) publicado em 06.04.2020.

Cassiolato, José Eduardo. « Que futuro para a indústria brasileira? » in O futuro da indústria: oportunidades e desafios: a reflexão da Universidade. Brasília, MDIC/STI/IEL. Nacional, capítulo 1, 2001.

Estado de Minas “Pompeo pedirá em discurso que povo chinês faça mudanças no Partido Comunista”. https:// www.em.com.br/app/noticia/internacional. 23.07.2020.

Fiori, José Luis. O Poder global a nova geopolítica das nações. São Paulo. Boitempo Editorial. 2007.

Garcia, D & Pamplona, N. “Taxa de desemprego “real”seria de 21,5% se não fosse o desalento recorde, dizem economistas”Sp, Folha de São Paulo, 07.08.2020.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado

Folhapress. “Pesquisa da vacina russa para a covid-19 foi cercada de segredo” https://www.folhapress.com.br/notícias/pesquisa-da-vacina-russa/150446/

11.08.20.

Kesselman, D. “Trabalho Precário e precarização institucional nos Estados Unidos”, Porto Alegre, Sociologias, ano 12, no.25, pp 66-10, 2010.

Maestri, R. “O objetivo do imperialismo não é mais produzir nas colônias mas sim o decrescimento dessas” , jornal GGN . https:// www jornalggn.com.br/artigos/ o-objetivo-do-imperialismo-nao-é-mais-produzir-nas-colônias-mas-sim-o-decrescimento-dessas. Publicado no dia 17.08.2020 e acessado no mesmo dia.

Mirhan, L. “A inevitabilidade da guerra dos EUA contra a China” In: Portal Vermelho, publicado no dia 27.08.20. https://vermelho.org.br

Nassif-Pires,L; Lima Xavier, L; Masterson, T.;Niki-Foros, M; Rios-Ävila,T. We need class, race and gender sensitive policies to fight the covid-19 crisis. Multiplier effect,the levy economics, Institute Blog. http://multiplier-effect.org/2020

Nogueira, L. “Sem rigor, vacina russa pode representar risco à saúde humana, diz infectologista.” https:// olhardigital.com.br/coronavirus . 11.08.20

Purkayastha, B. “La división hace la fuerza”: la pandemia en Estados Unidos” Clacso. In : Bringer, B. & Pleyers, G. Alerta Global. Políticas, movimientos sociales y futuros en disputa en tempos de pandemia. Buenos Aires, Clacso 2020, agosto 2020.

Romero, S. Checkpoints, curfews, airlifts: vírus rips through Navajo nation. The New York Times, 09.04.2020.

1 Nogueira(2020).https://olhardigital.com.br/coronavirus

2 Folhapress(2020)

3 Estado de Minas (2020)

4 As quatro sessões de entrevistas que o presidente russo, Putin, concedeu ao cineasta americano, Oliver Stone, são bem esclarecedoras dessa situação. O acesso pode ser no www.nocaute.blog.br ou no youtube.

5 http://www.nytimes.com/interactiva/2020/world/coronavirus-maps-html

6 Em matérial no jornal, O Estado de São Paulo, no dia 29.08.20, foi divulgado que pesquisadores da França, Inglaterra e Suiça compilaram estudos e pesquisas, concluindo que o uso da hidroxicloroquina não reduziu o número de mortes e quando o seu uso foi associado à azitromicina, os óbitos aumentaram.

7 A metodologia de campanha usada no Brasil, em 2018, foi inspirada naquela que elegeu o presidente Trump, centrada em redes sociais e com larga utilização de fake News, no estilo Steve Bannon, conselheiro dos dois presidentes, e que no dia 20.08.20, foi preso na cidade de Nova York, pelos policiais do distrito sul da cidade, sob a alegação de corrupção. No entanto, já foi solto, no mesmo dia, contra uma fiança de US$5milhões.

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