Mulheres que governam e a doença da covid-19, por Liana Carleial

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No momento em que um postulante a terceiro ministro da saúde do Brasil, em meio a uma pandemia, sente-se à vontade para atribuir – ao voto das mulheres – o fracasso das democracias, temos, sim, uma dimensão precisa do retrocesso civilizatório que vivemos, após o golpe de 2016. Exatamente, esse, que tirou do poder, sem crime de responsabilidade, a primeira mulher eleita, por duas vezes consecutivas, presidenta do Brasil.

Entre nós, a ausência de coordenação nacional das ações necessárias, num momento de tal gravidade, representa uma omissão irreparável que gerou uma crise humanitária, sem exemplos semelhantes na nossa história recente, e já levou a óbito mais de dezenove mil brasileiros, em dois meses.

Tal postulante, como sua fala indica, não foi capaz de olhar ao redor e compreender o que se passa no mundo. As mulheres adentraram ao mercado de trabalho, na década de 1980, em grande parte dos países, e nunca mais saíram; ocupam hoje as mais diferentes funções no espaço público. E se há uma relação entre, mulher e democracia, é exatamente de fortalecimento, à medida em que as lutas sociais por empregos, igualdade salarial entre os gêneros, expandiram-se pelo mundo, associadas às lutas por habitação, escolas, creches, saúde, direito sobre o seu corpo; enfim, a lista é grande.

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern.

Uma das importantes lições que a pandemia pelo novo corona virus evidencia é que há um grupo de mulheres governantes, exatamente seis mulheres, responsáveis por seus países e suas populações, que conseguiram imprimir menor sofrimento aos seus concidadãos. Fizeram algum milagre? Alguma bruxaria? Produziram e difundiram, oportunisticamente, algum medicamento milagroso? Não, apenas respeitaram o cargo que ocupam, as populações sob suas responsabilidades e ouviram a ciência. Nova Zelândia, Islândia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Alemanha, foram atingidas pelo vírus antes do Brasil e tinham poucos exemplos com os quais aprender: a China, a Itália, e o início difícil da contaminação na Espanha.

Como se trata de uma doença nova, sem vacina ou remédio específico, a ação da Organização Mundial da Saúde (OMS), foi cuidadosa desde 30 de janeiro, quando a considerou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, até 11 de março, quando a definiu como pandemia. A partir daí, os governos foram chamados para a orientação dos mecanismos de resposta.

Já em abril passado, a imprensa mundial, como por exemplo, a BBC de Londres e o jornal El Pais, já se dedicava a difundir o bom encaminhamento que essas governantes haviam conseguido imprimir em seus países, mesmo diante de diferenças de tamanhos populacionais e culturais entre eles.

É bem verdade, que esses seis países são ricos, compreendem a importância da ciência, são países democráticos nos quais a vida humana tem valor. No entanto, no estudo divulgado pelo Ceyhun Elgin, da Universidade da Columbia, divulgado no inicio de maio, nenhum desses países figurava entre os 10 países que mais estavam gastando recursos fiscais com a pandemia, cujo primeiro lugar cabia ao Japão, por investir 21% do seu PIB, enquanto a média entre os países ricos era de 6,7%, e a média global 3,7%. Então, o que diferenciou esses países, todos eles deixando em maior ou menor grau o confinamento ou isolamento social neste mes de maio?

A receita exitosa entre elas deveu-se a uma certa combinação: clareza da gravidade da contaminação 1, assunção da responsabilidade, rapidez nas ações implementadas com grande transparência, empatia, comunicação direta com as populações, obtendo o correspondente apoio e fundamentalmente, a submissão aos princípios científicos. A comunicação direta envolveu até filmes da representante da Nova Zelândia cuidando de sua filha pequena, veiculado na TV, para conferir proximidade. Igualmente, mensagens de apoio foram veiculadas para que as populações confinadas ou isoladas não se sentissem sós 2.

Na ausência de um protocolo preciso e, tendo em conta, que a transmissão se faz de, pessoa a pessoa, através de gotículas do nariz ou da boca quando a pessoa fala, tosse ou espirra, o recomendado pela OMS é a redução do contato, o que pode variar em graus. As atividades não essenciais devem ser suspensas, comércio, indústria teatros, cinemas e os diferentes grupos de risco devem permanecer isolados. Esse isolamento pode chegar ao limite de trancar as ruas, fechar fronteiras e proibir ou limitar vôos. Os caminhos de acompanhamento e controle entre elas, entretanto, variou, mas assentada na conjugação de isolamentos rígidos, testes e quarentena para os que chegavam seus territórios. Dinamarca e Nova Zelandia bloquearam fronteiras ainda no início de março; adicionalmente, vôos passaram a ser inspecionados e pessoas com sintomas foram para centros de isolamento. A Islândia rastreou os contatos de pessoas contaminadas. Todas essas ações buscavam achatar a curva de contaminação, evitar a propagação do vírus e a sobrecarga dos sistemas de saúde.

A nova Zelândia não se conformou em apenas achatar a curva mas buscou eliminá-la. Introduziu medidas restritivas fortes antes mesmo da ocorrência do primeiro óbito. A Finlândia isolou a região de Helsinque, à medida que a contaminação aumentava na capital, tal como a China fêz com Wuhan. Nova Zelândia e Islândia tiveram respectivamente, até 18 de maio passado, 14 e 10 óbitos entre os habitantes que haviam se contaminado. Os resultados estão ai, e suas populações já podem começar a pensar em retomar as suas vidas, respeitando o monitoramento do desconfinamento e suas governantes estão politicamente, socialmente e humanamente reconhecidas.

Mesmo tendo a pandemia, no Brasil, assumido uma dimensão de tragédia humana, a responsabilidade do grupo no poder, nem de longe, corresponde às necessidades e urgências dos brasileiros. Os caminhos para alterar esse quadro passam por uma cobrança efetiva de toda a sociedade civil, movimentos sociais, universidades, empresários, partidos políticos, trabalhadores da saúde, igrejas, cidadãos em geral, o que também não está acontecendo na medida suficiente para alterar a tendência

instalada de fuga das responsabilidades3 . Mas, como escolhi Zizek como meu “Cato” neste isolamento social, o jeito é ter muita esperança pelo que virá4.

Referências:

Afonso, J.R. & Pinto, E.G. Pouca Saúde. Le monde Diplomatique .Brasil. 20.05. 2020. Acervo On Line.

Rocha, L. O que aprendemos com elas: o caminho de países liderados por mulheres contra a covid-19. Diário de Minas. Edição de 28.04.20. Acesso dia 15.05.2020

1 A chanceler da Alemanha chegou a considerar a gravidade da contaminação pelo corona virus o o maior desafio a ser enfrentado desde o fim da 2a.guerra mundial.

2 Grande parte das informações sobre esses países e suas governantes, deve-se a Rocha(2020)

3 Afonso, J.R & Pinto, E. (2020) denunciam que até 14 de maio passado, o Ministério da Saúde havia gasto somente R$8bi, quando a dotação orçamentária era de R$ 18,9 bi, no âmbito do Fundo Nacional de Saúde (FNS), rubrica destinada ao enfrentamento sanitário da pandemia.

4 Escolher o Cato(filósofo estoico tido como rígido e inabalável) é uma prática antiga de escolher um conselheiro, mentor, professor e, certamente, pode variar dependendo do momento ( irmãosestóicos by instagram. Acessado em 17.05.20)

Liana Carleial é economista, professora titular em economia da UFPR, professora convidada do Programa de Pós-graduação em Direito(PPGD) e pesquisadora do Núcleo de Direito Cooperativo e Cidadania (NDCC) da mesma Universidade. liana.carleial@gmail.com 

Foto 1: Angela Merkel – Sandra Blaser/ Fórum Econômico Mundial

Foto 2: Jacinda Ardern – MoD/ Crown/ Fotos Públicas

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