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Economista de Chicago: Abaixo o socialismo corporativo! Por Andrés Ferrari Haines e André Moreira Cunha

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Adam Smith e seus herdeiros postularam que a prosperidade dependia do interesse próprio. Livres para buscar ganhos em mercados abertos e em expansão, os empresários poderiam alocar os escassos recursos da sociedade de maneira mais eficiente. Seu êxito individual se transformaria em benefício coletivo, não porque esse fosse o seu objetivo original, mas pelas engrenagens das interações de mercado. A concorrência obrigaria os menos eficientes a melhorar e aqueles que abusam de sua posição cobrando preços muito altos a baixá-los.

Sonhando com mercados livres

No mundo imaginado pelos economistas, as engrenagens do mercado só funcionam quando existe liberdade total para os preços dos bens e serviços se ajustarem de acordo com as flutuações da oferta e da demanda. Nesse contexto, os mercados garantiriam não apenas maior eficiência produtiva, mas também o uso completo e eficiente dos recursos produtivos. As possíveis crises causadas por excesso (ou falta) de produção poderiam ser corrigidas pela livre mudança dos preços. O Estado teria o papel de proteger a propriedade privada, garantir a estabilidade monetária e prover a segurança nacional. A preservação das liberdades políticas individuais seria inseparável da preservação do livre mercado.

A descrição anterior, por mais caricaturesca que pareça, reflete convicções profundamente enraizadas em muitos economistas. Contudo, eles se controlam de vez em quando, particularmente quando a força da realidade se impõe sobre as ideologias. A primeira metade do século XX foi um período notável nesse sentido. Duas grandes guerras mundiais, que deixaram atrás de si ao redor de 100 milhões de mortos, o surgimento de regimes totalitários, com diferentes cores ideológicas, e a grande depressão foram fenômenos que sacudiram as crenças sobre a eficiência do mercado e sua capacidade de garantir a reprodução social per se. Isso ampliou enormemente o espaço para o avanço de reformas que permitiram a expansão da inclusão social e a recuperação do crescimento. O capitalismo se reinventou, para surpresa tanto de seus críticos e como de seus defensores. O Estado ampliou seu papel como regulador do mercado e provedor de bens e serviços.

Em termos de economia, essa nova configuração foi facilitada pela existência de reformadores liberais com uma alta capacidade de formulação teórica, particularmente pelo economista inglês John Maynard Keynes. Defensor da democracia liberal e crítico do estatismo soviético, Keynes reformulou a teoria econômica e demonstrou que o equilíbrio com pleno emprego não era um resultado garantido, como pressupunham os economistas clássicos. Ao contrário, o desemprego era uma ameaça permanente, dado que os agentes econômicos tomam decisões de gasto em condições de incerteza sobre o comportamento futuro da economia. Em tempos em que prevalece o pessimismo, aumenta a demanda de proteção contra um horizonte muito negativo. A demanda de dinheiro (e outros ativos líquidos e seguros) aumenta como um meio para diminuir esses temores, o que reduz a demanda de bens que geram emprego. Para romper o círculo vicioso do medo do futuro que gera menos gastos privados, Keynes sugere a adoção permanente de políticas de regulação da demanda através da ação do Estado.

A partir da década de 1970, a aceleração da inflação e o retorno do desemprego possibilitaram que a retórica neoliberal se tornasse atrativa no mundo ocidental desenvolvido. Desde o final da década de 1940, intelectuais como von Mises, Heyek e Friedman vinham criticando a visão keynesiana. Argumentaram que a intervenção estatal só produzia ineficiência e inflação, o que parecia ser o caso na década de 1970. Desde então, reformas estruturais antiestatais vêm debilitando as redes de proteção social. Juntamente com o enfraquecimento dos sindicatos, o relaxamento da regulação financeira e a adoção de reformas tributárias regressivas significaram a estagnação da renda do trabalho e o aumento enorme da renda do capital. Como Thomas Piketty nos mostrou em sua investigação exaustiva e como admite o guru fundamentalista das finanças Warren Buffett, os ricos ganharam a guerra de classes.

Salvando o capitalismo dos capitalistas, outra vez?

Assim como os eventos traumáticos do século XX; a crise financeira de 2007-2009, os conflitos entre Estados Unidos e China e a pandemia de Covid-19 são eventos contemporâneos que têm o potencial de produzir novos arranjos institucionais e de políticas públicas. Todos eles revelam os limites que a reprodução da vida social enfrenta quando a mercantilização se torna excessiva e a capacidade existente de atuação do Estado é muito limitada. Os ecos das obras de autores como Polanyi e Keynes retornam aos analistas contemporâneos.

Isso é o que revela a análise do economista Luigi Zingales, professor de finanças da escola de negócios da Universidade de Chicago, em sua entrevista à BBC Brasil (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-52079780). A chamada escola de Chicago liderou o ataque contra a regulação do capitalismo do pós-guerra e estabeleceu as bases para as reformas neoliberais implementadas nos últimos quarenta anos. Depois da crise financeira de 2007-09, Zingales começou a alertar sobre a fragilidade política de defender finanças não reguladas. Isso devido à crise financeira ter revelado, mais uma vez, que o livre mercado funciona apenas para as pessoas comuns, enquanto as instituições financeiras e os ricos estão protegidos pela mão visível do Estado. À medida que essa percepção se estende na sociedade, abre-se espaço para uma retórica populista e antiliberal.

No caso da pandemia de corona vírus, Zingales defende a estratégia de isolamento social e o uso da lógica de “economia de guerra”. Para esse fim, embora reconheça o lado moral, utiliza um cálculo estritamente econômico: o isolamento salva vidas e reduz os impactos econômicos da crise. Em outras palavras, o custo das vidas perdidas para gerar riqueza no futuro é maior que o custo econômico de curto prazo de reduzir o nível de atividade econômica. Zingales começa com a estimação oficial de quanto vale a vida humana nos Estados Unidos (um valor que varia entre US$ 7 e 10 milhões), segundo a Agência de Proteção Ambiental. Portanto, salvar a vida de 800.000 a 1 milhão de pessoas poderia “salvar” o equivalente a um terço do PIB do país, algo similar a parar parcialmente o país por três ou quatro meses.

Zingales ressalta a importância de conter os efeitos da pandemia de maneira oportuna e organizada: países com governos eficientes, como Coreia, Taiwan e Singapura, foram capazes de reduzir os impactos econômicos e humanitários comparados com Itália e Espanha, que perderam capacidade estatal. A demora para atuar aumenta os custos econômicos. Em seu livro, em coautoria com Raghuram G. Rajan, “Salvando al capitalista de los capitalistas” (2003) ele já tinha afirmado que a existência de redes sólidas de proteção social e administrações competentes fazem com que a sociedade seja mais resistente aos choques inerentes ao funcionamento do mercado. São os países que as mantiveram que estão lidando melhor com os efeitos do COVID-19.

Isso é especialmente verdade, afirma Zingales, porque o contexto atual exige um esforço típico de uma “economia de guerra”, em que o importante a curto prazo é vencer o inimigo. Para combater os efeitos humanitários e econômicos do COVID-19 defende, ao mesmo tempo, um programa de renda universal para que as famílias possam ficar em suas casas. O governo deveria se preocupar em transferir recursos de pessoas mais velhas para as mais jovens e dos mais ricos para os mais pobres, para compensar suas perdas ao não trabalhar e poder cobrir suas necessidades.

Contudo, para Zingales, o pacote de contenção da crise tende a acentuar as distorções distributivas anteriores, pois enfatiza os subsídios às empresas e não a manutenção da renda das famílias. Afirma que se os US$ 2 trilhões do pacote dos Estados Unidos fossem completamente distribuídos entre as famílias, cada cidadão americano teria direito a US$ 6.000 ou US$ 24.000, em média por família. Entretanto, as medidas aprovadas pelo Senado indicam um investimento das famílias que é de 1/20 dessa quantidade (US$ 1.200). Zingales qualifica esse pacote como “um tipo terrível de socialismo corporativo”. Assim como aconteceu na crise financeira de 2007-2009, estão prevalecendo os interesses privados e os grupos de pressão das “grandes empresas”.

Essa distorção se torna ainda mais grave porque o confinamento é necessário, porém insuficiente para fazer frente aos efeitos da crise. A recuperação do nível de atividade, emprego e renda exigirá uma ação eficiente e profunda por parte dos governos. E os capitalismos organizados também serão mais eficientes aqui.

Zingales conclui que as políticas redistributivas podem ajudar a todos, porém são mais significativas para os ricos. Ao garantir a reprodução estável da sociedade, também são preservados os mecanismos de mercado que permitem a acumulação de riqueza. Apesar de muito parecida com a teoria meritocrática, Zingales afirma o que é óbvio para qualquer observador entusiasta da realidade capitalista: a produção de riqueza é um processo social, sem consumidores capazes e dispostos a comprar bens e serviços, os empresários “bem sucedidos” não tem como obter lucros.

Encruzilhada

No passado, a elite econômica entendeu essa lição, ou se viu obrigada a aceitá-la, e o capitalismo se reformou. Na mesma linha, Zingales aponta que o dinheiro para enfrentar essa crise deve vir da tributação da riqueza e ser complementado pela emissão controlada de moeda; o que historicamente aconteceu no capitalismo em momentos críticos. É que, como explica Zingales, somente salvando a sociedade é possível “também preservar grande parte do valor de sua riqueza”. Essa percepção é mais premente, em sua opinião, porque para ele não existe uma contradição entre salvar vidas e salvar a economia quando se atua cedo. Porém, se o tempo passa, sim.

Como afirmaram Keynes e Polanyi, destruir a sociedade não parece ser a forma mais inteligente de ganhar dinheiro a longo prazo. Sobre os ouvidos surdos que receberam os esforços de Keynes para salvar o capitalismo no entreguerras; seu biógrafo, Robert Skidelsky, afirmou que aqueles que necessitam da salvação terrena de sua riqueza poucas vezes entendem alguém inteligente o suficiente para salvá-los. O que pensarão de um professor de finanças da escola de negócios da Universidade de Chicago?

Publicado originalmente em https://www.cronista.com/

Andrés Haines Ferrari, economista argentino, Professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Doutor em Economia com ênfase em Economia do Desenvolvimento pela UFRGS.

André Moreira Cunha é Doutor em Economia pela Unicamp e Professor Associado do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.

Foto: Cap’n Surly/ Creative Commons

Tradução de Bruno Roberto Dammski

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