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China em apuros: há apenas 1.411.778.724 chineses, por Andrés Ferrari

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Na década de 1960, Mafalda perdia o sono pensando no que 700 milhões de chineses poderiam fazer. Como ela se sentiria agora que, de acordo com o novo censo publicado pela China, esse número é o dobro? Mais precisamente, existem 1.411.778.724 chineses atualmente.

Contudo, embora possa parecer estranho, o que chamou a atenção do mundo é que essa quantidade é considerada pequena…

Em 11 de maio, foi divulgado o último Censo Nacional da População Chinesa, realizado pelo país a cada década, que registrou esse valor quando o anterior, de 2010, era de 1.339.724.852. O que significa que a taxa média de crescimento anual da população caiu de 0,57% para 0,53%, desencadeando uma série de análises sobre o impacto que isso terá no futuro econômico da China.

Esta desaceleração é anunciada há muito tempo por estar ligada à política de controle do crescimento populacional implementada em 1980 – “de apenas um filho” por casal – e que esteve em vigor até 2015. Segundo alguns relatórios, a nova taxa de aumento é a mais baixa desde o “Grande Salto para Frente”.

A nova política de “dois filhos” por casal, até o momento, fez apenas aumentar de 16,6% para 17,95% a proporção de pessoas de 0 a 14 anos entre os dois últimos censos. A taxa de fecundidade atingiu 1,3, ficando longe da meta de 1,8 que o governo pretendia atingir até a década de 2020.

Os números do censo são avaliados como negativo pela China sob o argumento de que aumentou a proporção de pessoas com mais de 60 anos, que subiu para 18,7% quando, em 2010, era de 13,26%. Em contrapartida, a população em idade ativa, entre 15 e 59 anos, caiu de 70,14% para 63,35%.

Essa tendência faz com que, há muito tempo, se vaticine que a Índia está prestes a se tornar o país mais populoso do mundo, desalojando a China.

O Washington Post observou que “os economistas chineses alertaram sobre uma possível crise demográfica, caso não nasçam crianças suficiente nos próximos anos, que levará a tensões sociais à medida que uma quantidade menor de jovens terá que trabalhar para sustentar o envelhecimento da população”.

O Global Times abordou a questão em um editorial, afirmando que “é muito provável que a China experimente um crescimento populacional negativo no futuro”, mas que isso não deve “levar ao pânico”. Sobre o amplo impacto negativo que o censo teve na mídia ocidental, o editorial argumenta que a opinião pública ocidental tem uma interpretação “mais política, que visa de falar mal da China”. “Mas isso”, continua o texto, “é ridículo. Não importa o quão lento seja o crescimento populacional da China, a população de 1,4 bilhão é maior do que a população conjunta de todos os países ocidentais.”

O Global Times afirma ainda que “tornou-se um consenso social na China que o governo central deve tomar medidas para reverter ou interromper essa tendência demográfica” e aceita que o censo revela “problemas sociais realistas, como um fardo mais pesado para as próximas gerações. Contudo, impacto na competitividade internacional da China é particularmente lento e até insignificante. A China é uma potência jovem em ascensão e isso não mudará tão cedo.”

O China Daily cita a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de seu país, Hua Chunying, para refutar as opiniões exageradas dos que consideram a situação uma “bomba-relógio” de longo prazo ou que a China está enfrentando uma crise demográfica iminente. Esse jornal também refuta a notícia do Financial Times de que, em abril, o censo demorou para se tornar público por ter contado uma população total de menos de 1,4 bilhão – sugerindo que “ajustes” estavam sendo feitos. Por fim, o periódico chinês afirma que as “contradições estruturais demográficas”, reveladas pelo censo, expressam a baixa fecundidade que “se tornou um problema universal, enfrentado pela maioria dos países desenvolvidos”.

Em última análise, a mensagem na China é que o Censo revelou um problema, mas que o país o aceita e saberá como lidar com isso. Para o Global Times, como “a China é um país com forte capacidade de macro-controle… fará isso de forma mais eficaz do que os países ocidentais.” Da mesma forma, Hua argumentou que “o Ocidente fez muitos julgamentos e previsões, em quase todas as fases críticas do desenvolvimento da China, que foram refutados ao longo das décadas”.

Para concluir, Hua deseja aos obcecados por produzir essas avaliações negativas “uma vida feliz e saudável, como a que os chineses têm, para que possam testemunhar a realização do Sonho Chinês”, que consiste em fazer da China “uma nação plenamente desenvolvida” até o Centenário da República Popular da China, em 2049.

Por quantos chineses a Mafalda perderá o sono em 2049? “

Foto: PXHere

Andrés Ferrari Haines é professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais, Faculdade de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS). Integrante do Núcleo de Estudos dos BRICS (NEBRICS-UFRGA) e Poder Global e Geopolítica do Capitalismo (aferrari@ufrgs.br).

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