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Cenários Geopolíticos para 2021, por Diego Angelino

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O ano de 2020 foi marcado pelos efeitos, múltiplos e profundos, da Pandemia COVID19. Em termos geoeconômicos, por exemplo, a pandemia representou uma crise de dimensões planetárias com efeitos derivados das medidas tomadas para controlar o contágio, como o fechamento de economias e o rompimento de grandes cadeias produtivas. Em termos geopolíticos, a securitização da agenda da saúde e o aumento das diferenças entre os Estados são alguns dos efeitos que continuarão presentes no próximo ano.

Além dessa situação ímpar, o caótico 2020 confirmou e acelerou tendências sistêmicas de longo alcance, que já vinham condicionando o futuro da geopolítica e da geoeconomia do sistema mundial no médio e longo prazo. Essas tendências são a estrutura na qual os cenários geopolíticos regionais se desenvolverão durante 2021. Na minha opinião, as três tendências de longo prazo nas quais os cenários regionais se desenvolvem são:

Crise climática: o que, há algumas décadas, parecia uma ameaça distante ou uma simples advertência aos sistemas produtivos, tornou-se uma dolorosa realidade que multiplica conflitos e riscos para milhões de pessoas. Secas e mudanças nos padrões de chuva ameaçam multiplicar os cenários de fome, enquanto tempestades e eventos climáticos extremos criam cenários de emergência humanitária que têm levado a um aumento nos conflitos entre Estados e dentro dos Estados, forçando o deslocamento massivo de pessoas.

Digitalização: o desenvolvimento tecnológico atingiu um estágio de aceleração sem precedentes na história. A Inteligência Artificial (IA) combinada com a tecnologia biomédica, a produção industrial robótica e a produção militar de última geração, desencadeou um processo de alargamento das diferenças entre as sociedades. O que marcará o futuro geopolítico a médio e longo prazo. Para citar apenas dois fatos associados a essa tendência, pode-se mencionar: a recém-anunciada supremacia quântica dos supercomputadores chineses e o início de uma etapa da pesquisa biomédica que decodifica o ser humano a ponto de poder recodificá-lo à vontade.

Transformação da matriz energética: Impulsionado pela crise climática e dinamizado pelo progresso tecnológico, o desenvolvimento das energias renováveis ​​e a descarbonização dos sistemas produtivos tornaram-se tendências irreversíveis. Isso tem implicações geopolíticas de grande monta se considerarmos que no século XX, em grande parte, a importância e o controle dos recursos petrolíferos foram fundamentais para a definição do poder econômico e militar.

Os setores eólico (terrestre e marítimo), geotérmico, solar e de biomassa tornam-se os maiores destinos dos investimentos em energia. Isso tem implicações como o aumento das desigualdades econômicas, tecnológicas e de desenvolvimento entre economias capazes de compreender o significado dessa transformação e aquelas ancoradas no uso e exploração intensivos em carvão e hidrocarbonetos.

Além disso, houve uma mudança radical nos atores empresariais não estatais com capacidade de influência geopolítica. Durante a segunda metade do século XX foi cunhado o termo “7 irmãs”, para se referir às empresas petrolíferas que dominavam a economia e a influenciavam a política no mundo. Empresas que agora foram suplantadas por empresas de tecnologia, as chamadas GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft), que têm posição dominante e que estão cada vez mais envolvidas em setores estratégicos, como a saúde e a indústria militar.

Essas três tendências se retroalimentam e definem o quadro de ações nos cenários regionais que vão dominar a discussão geopolítica em 2021. É impossível percorrer os mais de 200 territórios e analisar a multiplicidade de relações, causas e efeitos que definirão a configuração do poder no próximo ano. No entanto, a partir deste espaço, procurou-se identificar alguns dos cenários geopolíticos regionais mais significativos, aqueles cujas repercussões podem definir não só os rumos do próximo ano, mas também as tendências geopolíticas do futuro próximo:

  1. China, a superpotência do século XXI. A resposta global à crise da saúde, lançada oficialmente na cidade de Wuhan, paradoxalmente, confirmou a natureza de superpotência da República Popular da China. Seu plano governamental de cinco anos, recentemente aprovado, define metas ambiciosas, como alcançar uma economia neutra em carbono até 2050 e o domínio da supremacia tecnológica e militar. Além disso, encerrou com sucesso uma missão lunar este ano e continua expandindo sua capacidade de influência em regiões como a África e a América Latina. O país não apenas marcou sua predominância econômica, mas acaba de declarar a supremacia quântica, acelerando a corrida tecnológica e marcando a possibilidade de ultrapassar os EUA e a UE nessas questões. A recém-lançada Associação Econômica Integral Regional tornou-se o maior bloco econômico do planeta, superando a América do Norte e a UE (União Européia) e concentrando 30% do PIB e uma porcentagem semelhante da população do planeta. Algo semelhante não teria sido possível sem a força de atração da economia chinesa.

No entanto, existem conflitos potenciais que estarão na pauta da análise geopolítica em 2021. Entre eles encontra-se o conflito crescente no Sudeste Asiático e na Oceania e o delicado equilíbrio em certas regiões de fronteira com a Índia. O agravamento de um conflito envolvendo a China colocaria o mundo em uma situação de profunda crise.

  • Trauma Pós-Trump nos Estados Unidos (EUA). O fim do ano parece significar o fim do conflito eleitoral após a eleição presidencial nos Estados Unidos, porém, o conflito social parece se intensificar a cada dia. A presidência de Joe Biden terá o desafio de tentar encontrar uma solução para problemas de longa data que estavam ocultos sob o exercício de sua supremacia geopolítica. A crescente desigualdade econômica, a decadência da infraestrutura pública, a ascensão das correntes neofascistas e racistas se apresentam como uma espiral ascendente que só parece ser combatida por uma representação democrática renovada, da esquerda, que não está totalmente representada na presidência Biden-Harris.

No exterior, Biden será desafiado a reparar os danos causados ​​por Trump aos acordos multilaterais, como o Acordo de Paris, e às relações transatlânticas (OTAN-UE). Tudo isso somado a longa demora de repensar o papel dos Estados Unidos em suas relações com os países da América Latina. Sem dúvida, um ponto de tensão geopolítica a ser observado.

  • Rússia e a recuperação do domínio no espaço pós-soviético. Após a recuperação do domínio geopolítico, e graças à crise que a presidência de Trump representou, a Rússia posicionou-se como referência nas mais complicadas negociações internacionais. No entanto, em 2021, o sempre convulsivo espaço pós-soviético apresenta espaços de incerteza. O mais proeminente é a Bielo-Rússia, que só conseguiu manter o presidente Lukashenko no poder com mão pesada. Somado a isso, existe uma relação complexa com o projeto neo-otomano na Turquia de Erdogan, que parece contestar sua capacidade de influenciar a Síria, Iraque, Nagorno Karabakh e Moldávia.
  • Pós-Merkel, pós-Brexit Europa. A experiência traumática da pandemia não só representou a perda de vidas e efeitos econômicos devastadores para o continente europeu, mas também alterou o esquema de fronteiras abertas dentro da UE. Em 2021 se verá quais dessas medidas se transformarão em tendências de reajuste migratório dentro da UE.

No plano nacional, um dos temas que chamará a atenção é a Alemanha, que inicia a transição para a era pós-Merkel, processo que se define nas eleições federais de setembro. Merkel foi a figura política dominante na Europa na última década, ofuscando suas contrapartes quando se trata de questões importantes como a abertura para receber refugiados, negociações referentes ao Brexit e a estabilidade do multilateralismo na era Trump, entre outras. A transição alemã e os sinais lançados pelo novo governo serão, sem dúvida, um tema importante da geopolítica no ano que vem.

Teremos de estar atentos ao momento de conflito multifatorial na França, onde a classe operária e camponesa está em permanente mobilização desde a chegada de Macron ao poder. O que se soma a um conflito crescente com a população islâmica que já levou uma troca de declarações com a Turquia.

Por fim, dentre outras tendências com efeitos geopolíticos regionais, se destacam o aumento da direita abertamente fascista, presente até mesmo em partidos políticos e forças policiais, fato que adquire contornos ameaçadores em países como a Espanha.

  • Turquia e o neo-otomanismo. A guerra na região autônoma de Nagorno Karabakh, foi um conflito entre a Armênia e o Azerbaijão pelo controle do pequeno enclave. O mundo mudou muito desde o último confronto em 1994 – principalmente com respeito a tecnologia de guerra – e durante as semanas que durou o conflito, assistimos ao emprego militar de drones que foi essencial para o Azerbaijão prevalecer nesta ocasião. Para além da variável tecnológica, foi fundamental o apoio da Turquia, Estado que tem manifestado, em declarações e ações, a sua intenção de ser um dos principais atores geopolíticos nos próximos anos. Não foi apenas o seu apoio ao Azerbaijão, mas o Estado turco multiplicou sua intervenção em diferentes cenários, se envolveu na guerra na Síria, Líbia e Iraque, aumentou seu envolvimento na Europa por meio de uma presença ameaçadora no Mediterrâneo (confrontando a Grécia por meio de declarações e ações diplomáticas), e até mesmo mobilizando a população muçulmana na França e na Alemanha.
  • A Turquia tornou-se um ator na agenda geopolítica dos EUA, Rússia, Irã e UE, mais como uma ameaça do que como um aliado.
  • América Latina e seu novo ciclo anti-neoliberal. Na América Latina, os olhos estarão no Chile e em seu projeto constituinte. Não só pela possível solução para o longo conflito social, mas como um processo que pode significar repensar o pacto social que subsiste na maioria dos países da região. Uma nova busca após o fracasso do Socialismo do Século XXI e um processo que pode render opções que busquem redimir a pendência histórica dos sistemas patriarcais, crioulos, oligárquicos e ultracorruptos que prevalecem do Rio Bravo à Terra do Fogo. O caso do Brasil é especial. Longe do momento de surgimento do grupo BRICS, que alçou importante estatura mundial, que logrou posicionar sua agenda como referência em temas como desenvolvimento, ciência e multilateralismo. A crise que desembocou na presidência de Bolsonaro, que isolou o Brasil e o transformou em pária, símbolo decadente de um autoritarismo vazio que vinculou a agenda do gigante sul-americano a influência norte-americana. O Brasil se tornou ameaça global pela desastrosa gestão da preservação da floresta amazônica. Com Biden na presidência dos Estados Unidos a agenda ambiental deve ser um dos pontos de difícil interlocução e certamente ponto de atrito.  A relação com a Argentina de Alberto Fernández e Cristina Kirchnner deve ter outros pontos de tensão de depois de anos de estabilidade geopolítica na América do Sul.
  • Outro cenário de grande importância são as eleições legislativas no México, que serão fundamentais para consolidar o processo da chamada 4T (quarta transformações, como é conhecido o governo de Andrés Manuel López Obrador) com repercussão não só no México, mas na América Central e do Sul.
  • Nordeste da África, um ponto de conflito com alcance regional. A Etiópia é um Estado com uma enorme carga simbólica na geopolítica africana. É a sede dos escritórios da União Africana (UA) e, há alguns anos, é identificada como um mercado emergente marco de um caminho em direção à paz e ao desenvolvimento de todo o continente. No entanto, 2020 se encerra em meio a uma situação extremamente delicada. Esse país enfrenta um grande conflito com a região de Targil, um conflito que pode se transformar em uma guerra civil e envolver outros Estados como a Eritreia e o Sudão. A isso, devemos adicionar as complicadas negociações com o Egito e o Sudão sobre os efeitos da barragem: “Grande Renascimento Etíope”. Este projeto, com enormes impactos devido ao seu grande potencial energético e de desenvolvimento, parece se tornar um dos hot spots de interesse para estudantes de relações internacionais.
  • No Oriente Médio, o conflito que definiu o século XX na região (Israel x mundo árabe) parece estar em uma nova fase. Surpreendentemente, Israel consolidou a ocupação ilegal e criminosa do território palestino e, pela primeira vez, obteve reconhecimento e uma aliança geopolítica com atores do mundo árabe, especialmente os Emirados Árabes Unidos. Isso levou a uma escalda do conflito com o Irã, um Estado que tem sido atingido por sanções econômicas e militares, e até mesmo pelo o assassinato seletivo de comandantes militares (episódio em que a possível autoria do Estado de Israel foi apontada).

Como mencionado no início, essa enumeração não esgota o panorama geopolítico para 2021, mas oferece uma seleção de para onde estarão voltados os olhos dos especialistas, das lideranças políticas e dos financistas no próximo ano. Isso, cabe pontuar, do ponto de vista da geopolítica do Estado, definida pelo Estado-nação como a unidade organizacional do sistema mundial.

Entretanto, geopolítica representa uma configuração de poder e, neste sentido, 2021 pode desenvolver “outra” geopolítica – uma geopolítica não estatal, de desenvolvimento local e que pode implicar a transformação das relações de poder e a redefinição de autonomia. Nela, o poder pode ser exercido, comunicado e compartilhado de maneira inovadora. Seja no Zapatismo mexicano, no Partido dos Trabalhadores do Curdistão, no Black Lives Matter, nas lutas feministas na América Latina ou nas técnicas anti-polícia em Hong Kong, uma geopolítica poderosa de localidades, cidades e comunidades parece latente. As comunidades que revelam a incapacidade e as contradições dos Estados Nacionais face à gestão de crises como a crise climática ou a crise gerada pela pandemia de COVID19, e, sobretudo, face à permanência de um sistema mundial capitalista, atormentado por injustiças, autoritário e fechado ante o impulso de mudança geracional. Em 2021, a diversidade no contexto de um mundo hiperconectado deve importar um aumento do conflito dentro dos Estados.

Ninguém esperava o surgimento da COVID 19 em 2020, e agora, talvez ninguém imagine as repercussões do impulso à transformação dos Estados para o exercício do poder e organização do sistema mundial, no marco das tendências de longo alcance mencionadas no início deste texto, alimentará os trabalhos de especialistas e analistas da política mundial. Nos encontraremos aqui.

Feliz Ano Novo.

Tradução: Bruno Roberto Dammski

Foto: Divulgação/ República Popular da China

Diego Angelino é Mestre em Cooperação para o Desenvolvimento Internacional pelo Instituto Mora do México. Ele tem especialização em Governança Global pelo Instituto Alemão de Desenvolvimento e participou do programa de treinamento International Futures para jovens diplomatas no Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Tem sido colaborador de instituições de cooperação internacional e também membro de grupos de trabalho e pesquisa em vários centros de estudos em economias emergentes. Atualmente é consultor independente em questões de sustentabilidade.

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