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Bolívia: crônica de uma surpresa esperada, por Carlos García Torres

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A Bolívia é vista no imaginário latino-americano como uma vasta planície de céus sem fim com um grande lago onde se ouve o lamento triste das ocarinas de argila. Mas este país – imenso, complexo, de contrastes tremendos – é muito mais do que essa imagem estereotipada.

Sua riqueza cultural remonta aos tempos pré-históricos. Berço da cultura Tiahuanaco e importante baluarte do Império Inca, reúne em seu território diversas culturas ancestrais, entre as quais se destacam a Quechua, a Aymara e a Guarani.

Um passado agitado

Sua origem republicana deveu-se à liberação dos territórios do Alto Peru, pertencentes ao antigo Vice-Reino de Lima, em 1825. Antonio José de Sucre travou as últimas batalhas pela descolonização desses territórios e decidiu que deveriam formar um novo país denominado Bolívia, em homenagem a Simón Bolívar. O próprio Sucre foi o primeiro presidente do novo país. Desde então, do século XIX, na nova República teve um papel decisivo tanto na alternância no poder dos partidos conservador e liberal como a guerra do Pacífico (1879-1883). Este incidente de guerra levou à perda de seu acesso para o mar. No século XX ocorreu uma nova guerra com o Paraguai, a Guerra do Chaco (1932-1936), que levou a outras reduções territoriais. A partir de 1936, teve início uma ditadura militar que nacionalizou os campos de petróleo então sob o comando da Standard Oil. As décadas seguintes foram de instabilidade política, marcada pela alternância entre governos eleitos e governos de fato. Nesse período, o Movimento Nacionalista Revolucionário e a Frente de Esquerda Revolucionária tiveram grande preponderância. Em 1952, um dos governos militares realizou a chamada “Revolução Nacional Boliviana”, que promoveu uma reforma agrária e nacionalizou as operações de mineração de estanho.

A ditadura do general René Barrientos (1964-1969) foi especialmente sangrenta, nesta fase ocorreu a tentativa revolucionária, fracassada, de Ernesto Che Guevara e seu assassinato. O período ditatorial continuou com vários outros nomes até a chegada de Hugo Banzer, provavelmente, o mais brutal dos ditadores bolivianos.

Em 1978 houve uma tentativa de restaurar a democracia que só teria sucesso em 1982. Em 1985, a Bolívia tornou-se vítima do neoliberalismo do presidente Víctor Paz Estenssoro. Em 1996, Gonzalo Sánchez de Lozada levou a cabo um agressivo programa de privatizações que privou o Estado do controle de setores estratégicos.

Não há dúvida de que a história política boliviana está ligada à sua imensa riqueza mineral e seus hidrocarbonetos. No seu vasto território encontram-se minas de estanho, ouro, zinco, prata e importantes reservas de antimônio, chumbo, tungstênio, cobre e lítio. Ao que se soma o gás natural, elemento energético estratégico no cone sul. Logo, pode-se deduzir que o contexto econômico e político internacional não é estranho a toda essa riqueza em potencial. Mas, como em toda a América Latina, existe também na Bolívia um doloroso contraste entre as possibilidades de riqueza e a realidade dos altos índices de pobreza e marginalização dos despossuídos nas cidades e no campo.

A grande mudança e o golpe

Em 2006, um amplo movimento popular levou Evo Morales ao poder, por um antigo partido chamado Movimento para o Socialismo (MAS). Morales implantou reformas políticas radicais, orientadas para um novo paradigma, que foram especificadas na Constituição Boliviana de 2009. Esta Constituição (assim como a Constituição do Equador de 2008) se afasta dos modelos republicanos, liberais e de nação única, que são os marcos históricos ortodoxos de todos os países da região. Ela buscou, nas profundezas históricas e humanas da Bolívia, novos valores, novos marcos para a vida nacional, mais coerentes com a sustentabilidade e com suas próprias alternativas ao capital internacional. Durante os 13 anos seguintes, Evo Morales realizou importantes transformações populares. Essas reformas foram ofuscadas por um caudilhismo crescente, que acabou distorcendo o caráter essencial do movimento que o levou ao poder. Em 2016, um referendo negou a Morales a possibilidade de reeleição, apesar disso, em 2017 o Tribunal Constitucional (que tem poderes contra a maioria) negou a decisão do povo e concedeu ao presidente a possibilidade de um novo mandato. As eleições de 2019 deram uma vitória apertada a Morales, o que levou a acusações de fraude endossadas pela Organização dos Estados Americanos. Esses acontecimentos criaram a oportunidade para que setores conservadores, apoiados por um pronunciamento militar, dessem um golpe que levou Morales ao exílio.

O general Williams Kaliman Romero, de um ponto de vista asséptico e falsamente neutro, facilitou a queda de Morales e a ascensão ao poder de Jeanine Añez, então vice-presidente do Senado. Essa ascensão, em condições abertamente irregulares, foi posteriormente validada pelo Tribunal Constitucional. Cabe esclarecer que o Senado boliviano é um órgão de Estado com muito poder, composto por poucos membros eleitos de acordo com os percentuais eleitorais obtidos por cada partido político em cada um dos departamentos da República. Juntamente com Jeanine Añez, o líder de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, um feroz adversário de Morales, com muita unção bíblica, mobilizou seus seguidores. Houve outros setores que, acreditando-se enganados, aderiram às marchas populares. Apesar de tudo isso, o pronunciamento final foi do exército que, segundo a tradição latino-americana, arbitra todas as questões democráticas. O caso boliviano foi um golpe evidente, apesar das aparências de transição constitucional. A repressão militar aos setores camponeses que apoiavam Morales causou pelo menos 22 mortes. Esses fatos ainda precisam ser completamente esclarecidos.

Esses acontecimentos – o governo transitório, a Bíblia nas mãos, gestos patéticos que beiram o ridículo – ecoaram durante um ano cheio de más notícias para os bolivianos. Um governo como este, que exibe tamanha pobreza de concepções e realizações, mereceria ser omitido desta história. Contudo é preciso recordar seus infelizes conflitos diplomáticos com Cuba, com o México, com a Espanha e com a Argentina; suas declarações abertamente racistas, que depois foram negadas e seu tratamento, muito criticado, da pandemia.

A convocação várias vezes adiada de novas eleições trouxe de volta o ex-presidente Carlos Mesa, que liderou uma aliança chamada “Comunidade Cidadã”. Uma espécie de amálgama político que agrupou, entre outros movimentos, a ex-Frente Revolucionária de Esquerda (agora caudilha da direita) e apresentou um programa político que se absteve de qualquer posição comprometida, proclamando desejos e necessidades sem uma estrutura coerente.

Luis Fernando Camacho foi patrocinado pela Aliança Cremos (Alianza Creemos), que inclui o Partido Democrata Cristão. Ele propôs uma plataforma de direita mais radical, baseada no modelo liberal supostamente bem-sucedido do Departamento de Santa Cruz. Camacho baseia sua popularidade, em certos setores, se apresentando como o líder visível da direita do departamento oriental de Santa Cruz. Esse departamento tem se caracterizado pelo seu desenvolvimento econômico e pela crença de constituir um grupo humano, diferente do resto dos bolivianos, cujas possibilidades seriam dificultadas por políticas de Estado igualitárias.

O MAS propôs Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo Morales, com aprovação significativa em setores urbanos e rurais e para acompanha-lo David Choquehuanca, ex-ministro das Relações Exteriores, que goza de grande aceitação nos setores camponês e proletário.

A surpresa de 18 de outubro

No dia 18 de outubro ocorreram as eleições e no dia 23 de outubro Luis Arce foi declarado vencedor com 55,1% dos votos. A grande diferença com relação ao segundo colocado provocou  fúria nos setores mais reacionários de Santa Cruz que anunciaram que não reconhecerão as eleições. Foi uma surpresa desagradável para a direita saber do percentual de votos muito mais alto de Arce. Manfredo Kempf, colunista de direita do “El Diario”, jornal tradicional de La Paz, disse em seu artigo de 22 de outubro: “Depois das 12 horas da noite de domingo passado, quase tive um infarte quando vi que Arce, a quem era atribuída uma pequena vantagem com relação a Mesa, conseguiu mais de 50% dos votos e que Mesa, preguiçoso na campanha, ficou com 30% e Camacho com 14 ”. Setores de direita agora atribuem essa “surpresa” a um suposto acordo entre o MAS e a presidente Añez. Outro colunista do “El Diario”, Luis Antezana, encontra uma saída para sua confusão afirmando: “A presidente Añez só se dedicou à burocracia e ao combate à pandemia – deixou a política de lado – enquanto o poder co-governante não se importou com o vírus – só se dedicou à política ”.

Os setores progressistas, por sua vez, acolheram com alegria o resultado eleitoral. Ricardo Bajo, colunista de esquerda do jornal “La Razón” descreve a atmosfera do domingo 18: “Há abraços, há lágrimas de alegria e há lágrimas de tristeza pelos caídos no combate. O ódio nunca construiu nada. O racismo que rima com o fascismo nunca levantou um país. Eles tiveram um ano para melhorar, eles acreditaram em suas próprias mentiras – eram apenas um monte de fumaça assassina.”

O MAS 2.0

Luis Arce parece, até agora, disposto a consertar os erros que levaram o MAS a se afastar de suas bases. Ele anunciou, inclusive, o advento de um “MAS 2.0”. Para Arce cumprir sua palavra terá que solucionar as fraturas ideológicas internas do movimento, evitar que lideranças autenticamente populares sejam suplantadas por intermediários da classe média e, sobretudo, afastar-se, o máximo possível, da tendência ao messianismo, que foi o mal de muitos dirigentes da Nova Esquerda Latino-americana.

Conclusão

Já foi exposta a grande complexidade da Bolívia, porém é necessário insistir na dificuldade de dar conta de toda a sua vida política em poucas linhas. Pode-se dizer com alguma certeza que a Bolívia, ao longo de sua conturbada história, é um país que, de mãos dadas com o racismo estrutural, se empenha insistentemente em construir “um nós e um eles”. Os setores urbanos, e mesmo alguns setores intelectuais, rejeitam consciente ou inconscientemente seu milenar e rico patrimônio cultural.

Essa permanente construção do outro como ameaça ou perigo leva à polarização política e à fragmentação social. Assim, enquanto tudo isso acontece nas classes dominantes, as maravilhosas riquezas deste imenso país fogem das mãos mais necessitadas de um povo permanentemente empobrecido.

Tradução: Bruno Roberto Dammski

Foto: Reprodução/ Ryply.tv

Carlos García Torres Ph.D.
COORDENADOR DA CÁTEDRA UNESCO DE ÉTICA Y SOCIEDAD EN LA EDUCACIÓN SUPERIOR
UTPL – Universidad Técnica Particular de Loja – Equador
Doutor em Saúde e Ciências Sociais (UNED) Espanha.
Doutor em Jurisprudência (Universidade Nacional de Loja) Equador.
Mestre em Gênero, Equidade e Desenvolvimento Sustentável (Universidade Técnica de Ambato) Equador.
Bacharel em Direito (Universidade Nacional de Loja) Equador.
Licenciatura em Ciências Sociais, Políticas e Econômicas. (Universidade Nacional de Loja) Equador.
Bolsista Fulbright na Universidade de Massachusetts, em Amherst.

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