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Biden anuncia uma ‘nova era’ no uso do poder dos EUA, por Andrés Ferrari Haines

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Ele argumenta que o país perdeu totalmente o rumo quando entrou em guerra com o Afeganistão. De modo que, assim como o mundo está mudando, a liderança dos EUA também deve mudar.

Em um pronunciamento público para explicar a decisão de se retirar do Afeganistão, o presidente dos EUA, Joe Biden, disse que está começando uma “nova era” no uso do poder americano.

A novidade se deve a que “esta decisão sobre o Afeganistão não diz respeito apenas ao Afeganistão. Trata-se de encerrar uma era de grandes operações militares que visavam refazer outros países”. Essa conclusão, para Biden, decorre da importância de aprender com os erros cometidos durante a atuação dos Estados Unidos no Afeganistão.

Biden argumenta que o país perdeu totalmente o rumo quanto ao que levou os Estados Unidos à guerra contra o Afeganistão. “Nós cumprimos o que pretendíamos fazer no Afeganistão há mais de uma década”, mas “ficamos uma década a mais”, disse Biden. Na sequência, ele criticou os que acham que os EUA deveriam permanecer no Afeganistão: “Qual interesse nacional vital dos Estados Unidos seria ameaçado?”

Para Biden, se a retirada não fosse empreendida, a consequência seria entrar em uma terceira década de guerra. Na sua opinião, os objetivos de segurança nacional dos Estados Unidos originalmente existentes, decorrentes do ataque de 11 de setembro de 2001, foram atingidos anos atrás, incluindo o assassinato de Osama bin Laden em 2011.

Biden afirmou que atrasar o plano de saída, que havia sido acordado por Donald Trump, significaria transformar uma “guerra para sempre” em uma “saída para sempre”, o que implicaria estender uma guerra que “só serviria para colocar mais americanos em perigo”. De agora em diante, ele afirmou, é necessário que os afegãos passem a governar e se defender por eles mesmo.

RETIRADA POLÊMICA…. E INCONCLUSA?

Segundo uma pesquisa da Pew Research, 54% dos americanos aprovam a retirada, mas apenas 26% aprovam a forma como foi realizada, contra 42% que não a aprovam tal forma.

Um ponto particularmente delicado é o fato de 200 americanos terem sido “vergonhosamente abandonados”, como disse o deputado republicano Kevin McCarthy. “Seu desprezo pelos americanos que abandonou atrás das linhas inimigas é vergonhoso”, disse o senador republicano Ben Sasse. “Ele prometeu ao Talibã que nossas tropas partiriam antes do prazo arbitrário de 31 de agosto e prometeu ao povo americano que nossas tropas iriam ficar até que todos os americanos partissem. Ele cumpriu a promessa feita ao Talibã e mentiu para o povo americano.”

No entanto, também é problemático para a população aceitar que, com a retomada do Afeganistão pelo Talibã, esse país volta a estar dominando por aqueles que os EUA deveriam ter expulsado. Muitos se perguntam o significado de ter sofrido mais de 2.400 mortes em combate e gastar bilhões de dólares. As imagens do Talibã realizando um desfile militar com os equipamentos deixados pelos Estados Unidos, evidentemente, não ajudaram a atenuar a indignação de muitos.

Além disso, a retirada dos EUA não resolve a questão externa do país. Não está claro se os Estados Unidos estabelecerão ou não relações diplomáticas formais com o Afeganistão. Em parte, isso ocorre porque não se pode descartar a hipótese de que o país poderá, mais uma vez, servir de base para organizações terroristas como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Diante do recente ataque terrorista do Estado Islâmico-Khorasan que matou 13 soldados americanos, Biden alertou “ainda não acabamos com você” e acrescentou que “os Estados Unidos não vão descansar. Não vamos perdoar. Não vamos esquecer. Vamos persegui-lo até os confins da Terra. E fazê-lo vai pagar o preço máximo.”

Com essas expressões, Biden lembra George W. Bush, que deu início à luta antiterrorista que levou os Estados Unidos ao Afeganistão. A diferença, de acordo com Biden, é que “simplesmente não precisamos travar uma guerra terrestre para isso”. Para ele, essa conclusão decorre da necessidade dos EUA aprenderem com os erros cometidos durante as duas décadas de guerra no Afeganistão – correspondentes às gestões Bush, Obama e Trump.

A mídia perguntou à secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, se o presidente havia cometido um erro para aprender, ao que ele respondeu que “todos nós tínhamos a expectativa de que as forças de segurança nacional afegãs lutariam mais fortemente, afinal, lutavam contra o Talibã.” Mas sua resposta com drones ao ataque terrorista, que matou até menores, mostra como a presença armada dos EUA na região tem servido para fornecer novos membros a grupos terroristas.

VOLTAR AO FUTURO?

Diante de tudo isso, a analista internacional do Washington Post, Jennifer Rubin, relatou que “os críticos da direita já estão prevendo outro 11 de setembro, o colapso da OTAN e a erosão da influência internacional dos Estados Unidos”. Enquanto para ela, “nossos aliados não mostram nenhum sinal de que preferem navegar em um mundo perigoso sem nós”, ela diz que o importante é “entender como uma guerra construída sobre ilusões e ignorância cultural pode continuar por duas décadas e por que nossa inteligência constantemente se equivoca nas grandes questões (desde não antecipar a queda da União Soviética até a inexistência de armas de destruição em massa no Iraque).”

Desse modo, Rubin conclui que “se não resolvermos esses problemas mais fundamentais, repetiremos os erros do Afeganistão com a mesma certeza com que repetimos os erros do Vietnã no Afeganistão”. Diante disso, o “sucesso extraordinário” não seria, como Biden pontuou, a evacuação de Cabul, mas sim conseguir que, efetivamente, com essa decisão, acabe a era de uma política externa que usa o poder militar “para refazer outros países”.

Para Biden, é isso que leva os Estados Unidos a acabarem atolados em guerras sem fim, porque “se destinam a refazer países”. Biden disse que “o mundo está mudando” e que a liderança americana deve mudar com ele. Ao contrário de seus antecessores, “entre a saída ou a escalada”, ele optou pela aposentadoria. De agora em diante, disse ele, as missões militares dos EUA devem ser baseadas em “objetivos claros e alcançáveis” e focar “os interesses fundamentais da segurança nacional dos Estados Unidos”.

Aos afegãos, Biden dirigiu palavras de esperança: “Continuaremos defendendo os direitos básicos do povo afegão, especialmente das mulheres e meninas, quando falamos por mulheres e meninas em todo o mundo.”

Tradução: Bruno Roberto Dammski

Foto: Sgt. Benjamin Bloker

Andrés Ferrari Haines é professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais, Faculdade de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS). Integrante do Núcleo de Estudos dos BRICS (NEBRICS-UFRGA) e Poder Global e Geopolítica do Capitalismo (aferrari@ufrgs.br).

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