Cuba, a pequena ilha vermelha com um grande coração, por Maria Jose Haro Sly

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Em meados do século XX, o revolucionário argentino, Ernesto “Che” Guevara, era um jovem médico. Como estudante de medicina, ele subiu em uma moto e viajou pela América Latina. Foi então que ele descobriu a realidade deste lindo embora desigual continente. 

Seu entendimento sobre a dor das pessoas, sobre os limites do sistema de saúde e sobre a enorme distância entre médicos e pacientes foi aspecto crucial no Estado Socialista Cubano.

No dia primeiro de janeiro de 1959, os jovens revolucionários liderados por Fidel Castro e “Che” Guevara derrotaram o regime militar apoiado pelos Estados Unidos e estabeleceram o primeiro país socialista na América Latina. Cuba é uma pequena ilha a apenas 180km da Flórida. Desde então, Cuba tem sido como uma pedra no sapato dos Estados Unidos, que considera a região o seu quintal desde a Doutrina Monroe.

O pensamento de Che é fundamental na substituição definitiva do paradigma biomédico pelo paradigma sociomédico como uma resposta lógica para solucionar as necessidades de saúde da população. Este paradigma pensa o acesso à saúde como um direito humano, trabalha na prevenção e no desenvolvimento de melhor imunidade nos pacientes.    

A ilha sofre um embargo econômico (comercial e financeiro) de 60 anos dos Estados Unidos. Mesmo que o embargo restrinja seriamente a economia, Cuba apresenta os melhores indicadores de saúde da América Latina comparados aos indicadores de países desenvolvidos.

A população cubana e o mundo foram beneficiados por essa política. A medicina cubana tem sido central na atual luta contra o Covid-19.

Desde sua pioneira fundação como um país socialista, a diplomacia em medicina e a sua solidariedade têm construído a imagem internacional da ilha. A revolução cubana não esperou seu desenvolvimento econômico e sua consolidação política para começar a oferecer auxílio no campo da saúde, ainda que com o êxodo em massa de médicos que ocorreu desde 1959 quando 50% dos 6.286 profissionais emigraram.

Apesar das ações dos Estados Unidos para tentar desestabilizar a Revolução, em 1960 um brigada médica emergente e várias toneladas de equipamento e suprimentos foram mandados para o Chile, afetado por um terremoto intenso que deixou milhares mortos.

Considera-se a data do começo oficial da Colaboração Médica Cubana Internacional com brigadas permanentes o ano de 1963, ano de envio da primeira brigada para a Argélia. Desde então, Cuba já mandou mais de 50 mil trabalhadores em cooperações internacionais para mais de 100 países diferentes. Cuba fornece mais pessoal médico para o mundo em desenvolvimento do que todos os países do G8 juntos. Além disso, na década de 90, o governo criou a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM) para desenvolver capacitação em muitos países, sobretudo no mundo em desenvolvimento.

Fidel Castro uma vez expressou: “Os médicos cubanos e os demais profissionais e técnicos da saúde constituem força excepcional. Nenhum país conta com algo similar; (…) como os soldados internacionalistas em nossa ilha, eles foram treinados em combate. Suas missões no exterior seguem rigorosos padrões de ética. Seus serviços são fornecidos gratuitamente ou de acordo com as circunstâncias do país que os recebe. Eles não são exportáveis”.

Atualmente as exportações médicas cubanas são setor chave para a economia. Correspondem a mais de 80% do total de exportações cubanas. 

No começo dos anos 80, Fidel decidiu criar o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (“CIGB” na sigla pela qual é conhecida em Cuba) com a ideia de que “O centro é grande, mas eu espero que os resultados científicos obtidos também sejam grandes”. Em menos de 5 meses, pesquisadores cubanos desenvolveram o Interferon, um remédio feito a partir de leucócitos humanos, estabelecendo o marco inicial do desenvolvimento da biotecnologia nacional. A droga foi aplicada em pacientes infectados com a dengue tipo 2 e nos meses seguintes foi usada para combater uma epidemia de conjuntivite hemorrágica.

De acordo com o cientista de prestígio do CIGB, Mr. Herrera Martínez “Interferon alfa-2b é uma das drogas que chama mais atenção dentre as utilizadas como bioterapia experimental para pacientes afetados pelo COVID-19. Seu uso é fundamentado e justificado pelas propriedades antivirais da molécula interferon-alfa. A China e a Espanha incorporaram esta droga a seus protocolos nacionais e orientações clínicas para o cuidado deste tipo de paciente”. Ele adicionou, “Nosso empreendimento conjunto em Changchun (ChangHeber), Jilin, China, gerou mais de 300 mil unidades do produto durante a epidemia e, em uma linha direta, nos contaram que a apresentação de 3MM foi usada por via intramuscular no pessoal médico exposto e a de 5MM para uso de inalação em pacientes.”

A versão Interferon alfa-2b foi usada contra infecções causadas pela AIDS, papilomatose respiratória recorrente causada pelo papilomavírus humano, condylomata acuminata e hepatites dos tipos B e C, e também é efetiva contra diferentes tipos de câncer. 

Outros 21 produtos são parte do protocolo Saúde em Cuba para combater o Covid-19, incluindo antivirais, antiarrítmicos e antibióticos.

Cuba não apenas compartilhou seu conhecimento com a China, como também enviou médicos para dar apoio a numerosos países com esta nova pandemia de Covid-19. 

A resposta solidária de Cuba para o mundo nesta crise coloca-se do lado oposto do governo do presidente Trump, que ofereceu a cientistas alemães “um bilhão de dólares” pelos direitos exclusivos à vacina de coronavírus para ser usada “apenas para os Estados Unidos da América”. Ela está no oposto da lógica de mercado que busca vantagens para si mesmo. 

Esta crise está redefinindo o ideal de Estado mínimo favorecido pelos liberais em nome da proteção da saúde pública. Provas disso são as nacionalizações de hospitais privados na Espanha que estão em andamento. Além disso, o presidente Macron na França emitiu uma forte declaração em favor do modelo francês de estado de bem-estar social, dizendo que “[nós precisamos] questionar o modelo de desenvolvimento com o qual nosso mundo tem estado engajado por décadas (…) o atendimento de saúde gratuito, sem condições de renda, carreira ou profissão, nosso estado de bem-estar social, não é um custo ou peso, mas sim um bem precioso, um patrimônio indispensável quando o acaso nos atinge. É o que essa pandemia revela (…)”.

Com o embargo, os Estados Unidos não está apenas bloqueando o desenvolvimento da economia cubana, mas também está contendo o avanço do desenvolvimento do sistema médico cubano. Um sistema com outra concepção de sistema de saúde, orientado para um paradigma sociomédico inclusivo, humanista, no qual o acesso à saúde é um direito e não uma mercadoria. Um sistema no qual a ciência está no centro do desenvolvimento em um mundo onde os cientistas estão sendo questionados, atacados e diminuídos – até mesmo em países desenvolvidos.

Se esta terrível pandemia está afetando a todos nós, ao redor do mundo, de diferentes formas, temos pelo menos um ponto positivo nesta história. A globalização não deveria ser apenas uma questão de comércio; o internacionalismo solidário de Cuba existe para pedir a construção de um Novo Homem, como sonhado por Che.

Gostaria de agradecer ao cônsul cubano em São Paulo, Pedro Monzon Barata, e ao cientista cubano Luis Herrera Martinez por suas contribuições para este artigo. 

Foto: Cortesia de Juan Martín Guevara

Maria Jose Haro Sly é socióloga, nascida na Argentina. Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestranda em Estudos Contemporâneos da China pela Escola da Rota da Seda, da Renmin University of China.

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